“O Brasil é um país de Terceiro Mundo”, “isso é coisa de Primeiro Mundo”. Hoje essas expressões são usadas como se fossem uma escala de riqueza: Primeiro Mundo seriam os ricos, Terceiro Mundo os pobres. Mas não foi assim que os termos nasceram. Eles vêm da Guerra Fria e falavam, antes de tudo, de alinhamento político. E aí vem a pergunta que quase ninguém faz: se existe Primeiro e Terceiro, onde foi parar o Segundo Mundo?
Nesta lição, você vai
- Explicar de onde vieram os termos Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo
- Mostrar por que eles não eram um ranking de riqueza
- Conhecer as classificações usadas hoje e seus limites
Ajuda ter lido: Geopolítica: o jogo entre países, Globalização: quem ganha e quem perde.
Uma analogia
Imagine uma escola dividida em dois times rivais, o Azul e o Vermelho, e os alunos que não quiseram entrar em nenhum. Alguém os chama de “terceiro time”. Anos depois, o time Vermelho acaba, e as pessoas começam a usar “Azul” para os alunos de notas altas e “terceiro time” para os de notas baixas. O nome ficou, mas o sentido mudou, e quem não conhece a história acha que sempre foi sobre notas.
Explicando para uma criança
Muito tempo atrás, os países se dividiram em dois grupos que brigavam, e os que não entraram em nenhum dos dois ganharam o nome de Terceiro Mundo. Depois, as pessoas passaram a usar esse nome para países pobres. Mas ser pobre ou rico não era o que o nome queria dizer no começo.
Antes de ler: o que você faria?
Num debate, um candidato diz que “o Brasil nunca vai dar certo porque é país de Terceiro Mundo” e compara o país com a Suíça.
O que há de errado no argumento? Que comparação seria mais útil?
Ver o que a lição responde
O termo não descreve um destino, e o Brasil é uma economia de renda média-alta. Comparar só com a Suíça esconde o que países de renda parecida conseguiram fazer. A lição mostra a origem do termo e os indicadores usados hoje.
A origem: um mundo dividido em blocos
Depois da Segunda Guerra Mundial, o planeta se dividiu entre os Estados Unidos e a União Soviética. Em 1952, o demógrafo francês Alfred Sauvy escreveu sobre “três mundos” e cunhou a expressão tiers monde, Terceiro Mundo. Ele fazia uma comparação com o Terceiro Estado da Revolução Francesa: o povo comum, ignorado pela nobreza e pelo clero, que um dia exigiu ser alguém.
| Mundo | Quem era | Exemplos |
|---|---|---|
| Primeiro | Os Estados Unidos e seus aliados capitalistas | Europa Ocidental, Canadá, Japão, Austrália; também membros mais pobres da Otan, como Portugal e Turquia |
| Segundo | A União Soviética e os países socialistas aliados | Polônia, Alemanha Oriental, Hungria, Bulgária e, depois de 1959, Cuba |
| Terceiro | Os que não pertenciam a nenhum dos dois blocos, a maioria ex-colônias na África, na Ásia e na América Latina | Índia, Indonésia, Egito, Gana; e, pelo sentido econômico, boa parte da América Latina |
O Terceiro Mundo também tinha um lado político ativo. Em 1955, a Conferência de Bandung, na Indonésia, reuniu países da Ásia e da África recém-independentes. Em 1961, nasceu o Movimento dos Países Não Alinhados, com líderes como Nehru, da Índia, Nasser, do Egito, e Tito, da Iugoslávia, um país socialista que se recusou a seguir Moscou. O Brasil participou como observador.
Por que a ideia de “ranking de riqueza” não se sustenta
- Riqueza não decidia o grupo: Portugal, sob ditadura e pobre para os padrões europeus, era do Primeiro Mundo porque estava na Otan. A Alemanha Oriental, uma das economias mais industrializadas do bloco soviético, era do Segundo.
- Havia ricos fora das caixas: Suíça e Suécia, neutras na Guerra Fria, não pertenciam a nenhum bloco militar e, ainda assim, eram ricas.
- O Segundo Mundo sumiu: com o fim da União Soviética, em 1991, o bloco deixou de existir. Sobrou um “Primeiro” e um “Terceiro” sem o meio, e os termos viraram sinônimo de rico e pobre.
Na prática, como quase todos os países do Terceiro Mundo eram pobres e muitos tinham sido colônias, o sentido econômico acabou engolindo o político. Daí a confusão de hoje.
O que se usa hoje
| Termo | O que mede | Limite |
|---|---|---|
| Classificação do Banco Mundial | Renda por pessoa: baixa, média-baixa, média-alta e alta. O Brasil está na faixa de renda média-alta | Mede renda média, não desigualdade nem qualidade de vida |
| IDH | Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU: renda, educação e expectativa de vida. O Brasil tem desenvolvimento humano alto | Também é uma média; dois países com o mesmo IDH podem ser muito diferentes por dentro |
| Desenvolvidos e em desenvolvimento | Uma divisão em dois grupos, comum na diplomacia e nos tratados | Simplifica demais: põe Coreia do Sul e Chade no mesmo lado por décadas |
| Norte e Sul Global | Uma divisão política, ligada à história colonial e ao poder no mundo, e não à geografia: a Austrália é “Norte” | Junta países muito diferentes, como China, Brasil e Haiti |
O médico e estatístico sueco Hans Rosling passou anos mostrando que a divisão entre “eles, os pobres” e “nós, os ricos” ficou para trás: a maior parte da humanidade vive hoje em países de renda média, numa escala contínua, e não em dois grupos separados. Em 2016, o Banco Mundial deixou de usar “em desenvolvimento” nos seus indicadores pelo mesmo motivo.
Por que isso importa na política
- Complexo de vira-lata: “país de Terceiro Mundo” virou insulto e desculpa: “aqui é assim mesmo”. A expressão esconde que o Brasil é uma economia grande, de renda média, com problemas específicos e soluções possíveis. Veja a lição sobre desigualdade.
- Comparações honestas: comparar o Brasil só com a Noruega ou só com o Haiti engana. Os indicadores internacionais permitem comparar com países de renda parecida.
- Política externa: a ideia de Sul Global ainda organiza alianças, como o BRICS e as negociações do clima, em que países pobres cobram dos ricos a conta histórica das emissões. Veja a lição sobre geopolítica.
- Herança colonial: a posição de muitos países na economia mundial vem de séculos de exportação de matéria-prima, tema da lição sobre a divisão internacional do trabalho.
Para guardar
- Os termos nasceram na Guerra Fria: Primeiro eram os EUA e aliados, Segundo a URSS e aliados, Terceiro os demais.
- Depois de 1991, o Segundo Mundo deixou de existir e os termos viraram sinônimo de rico e pobre.
- Hoje se usam renda por pessoa, IDH e a ideia de Sul Global, cada um com seus limites.
Para pensar
Quando alguém diz “isso é coisa de Terceiro Mundo”, o que a pessoa está querendo dizer de verdade? A frase ajuda a resolver o problema ou só a desistir dele?
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