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Como ler uma pesquisa eleitoral

Pesquisa é fotografia, não previsão. O que significam amostra, margem de erro e votos válidos, por que elas erram e como reconhecer uma pesquisa falsa.

IntermediárioDesinformaçãoVoto e eleições4 min de leitura

Toda eleição vem com uma enxurrada de pesquisas, e com a mesma briga: “a pesquisa está comprada”, “a pesquisa errou”, “a pesquisa manipula o eleitor”. Pesquisa séria é uma ferramenta útil e limitada. Para usá-la bem, é preciso entender o que ela mede, e o que não mede.

Nesta lição, você vai

  • Entender amostra, margem de erro e votos válidos
  • Saber por que as pesquisas erram
  • Reconhecer uma pesquisa falsa ou de torcida

Ajuda ter lido: Fake news e checagem de fatos.

Uma analogia

Pesquisa eleitoral é como provar a sopa com uma colher para saber se a panela está salgada. Funciona se a sopa foi bem mexida e a colher é limpa. Mas a colher diz como a sopa está agora, não como vai estar depois que alguém puser mais sal, e uma colherada em vinte vai enganar só por azar.

Explicando para uma criança

Para saber qual é o sabor de sorvete preferido da escola, você não precisa perguntar a todos: pergunta a algumas crianças de cada turma, meninos e meninas, pequenos e grandes. O resultado chega perto do que a escola inteira pensa, mas pode errar um pouco, e pode mudar se chegar um sabor novo amanhã.

Antes de ler: o que você faria?

Uma pesquisa dá 48% a 45%, com margem de erro de 2 pontos. A manchete diz: “candidato lidera”.

Ele lidera? O que a margem de erro quer dizer? O que é “empate técnico”?

Ver o que a lição responde

Com a margem, os intervalos se cruzam: empate técnico. A lição explica amostra, margem, votos válidos, por que pesquisas erram e como reconhecer pesquisa falsa e de torcida.

Como funciona

Ninguém pergunta a 150 milhões de eleitores. O instituto entrevista uma amostra, em geral entre mil e três mil pessoas, escolhida para representar o eleitorado em sexo, idade, renda, escolaridade e região. Se a amostra é bem feita, o resultado se aproxima do total, com uma margem de incerteza conhecida. É o mesmo princípio de provar a sopa com uma colher: funciona se a panela foi mexida.

TermoO que significa
Margem de erroO quanto o resultado pode variar para cima ou para baixo. Com 2 pontos de margem, um candidato com 40% pode ter entre 38% e 42%. Dois candidatos com 2 pontos de diferença estão em empate técnico
Nível de confiançaEm geral 95%: se a pesquisa fosse repetida muitas vezes, em 19 de cada 20 o resultado real estaria dentro da margem. Ou seja, 1 em 20 pode ficar fora, sem erro do instituto
Votos totais e votos válidosTotais incluem brancos, nulos e indecisos. Válidos excluem esses. Na eleição, quem vence no primeiro turno precisa de mais da metade dos válidos. Comparar totais de uma pesquisa com válidos de outra é um erro comum
Estimulada e espontâneaNa estimulada, o entrevistado vê a lista de nomes. Na espontânea, responde sem lista, e os números são bem menores
RejeiçãoEm quem o eleitor “não votaria de jeito nenhum”. Muitas vezes diz mais sobre o segundo turno do que a intenção de voto
Registro no TSEToda pesquisa divulgada precisa ser registrada com antecedência, informando quem pagou, a amostra, a margem e o questionário. Pesquisa sem registro é irregular

Por que elas erram

  • Quem não responde. Se eleitores de um candidato recusam mais a entrevista, ou mentem, a amostra fica torta. É a explicação mais aceita para erros recentes nos EUA e no Brasil.
  • Gente que decide na véspera. Pesquisa de uma semana antes não captura quem mudou de ideia no sábado.
  • Ponderação. O instituto ajusta a amostra para refletir o eleitorado, e cada ajuste é uma escolha que pode errar, sobretudo com escolaridade e renda.
  • Método. Entrevista presencial, por telefone e pela internet alcançam públicos diferentes.
  • Pesquisas de verdade também ficam fora da margem em cerca de 1 a cada 20 vezes, por pura estatística.

Em 2022, as principais pesquisas subestimaram a votação de Jair Bolsonaro no primeiro turno, e em 2018 houve erro semelhante com candidatos de outros campos em disputas estaduais. Isso mostra os limites do método, e não que as pesquisas sejam inventadas: institutos que erram muito perdem clientes, e seus resultados são comparados publicamente.

Pesquisa falsa e pesquisa de torcida

O que circula nas redes como “pesquisa” muitas vezes não é uma. Enquete de site ou de perfil, em que qualquer pessoa vota quantas vezes quiser, mede só quem foi mobilizado para votar. Pesquisa “paralela”, “interna” ou de instituto que ninguém conhece, divulgada sem registro, costuma ser propaganda. E pesquisa encomendada por partido pode ser séria, mas o contratante precisa aparecer, e é bom saber quem é.

Como ler bem

  1. Veja a tendência, não a pesquisa isolada. Uma oscilação de 2 pontos dentro da margem não é notícia. Vários institutos apontando a mesma direção, sim. Agregadores de pesquisas ajudam.
  2. Confira o registro no TSE: quem pagou, quantos entrevistados, quando, com que margem.
  3. Compare o comparável: válidos com válidos, estimulada com estimulada, mesmo instituto com mesmo instituto.
  4. Olhe a data da coleta, não a da divulgação.
  5. Lembre que pesquisa não é previsão. É um retrato do momento, com borrão.
  6. Não vote pela pesquisa. O “voto útil” é uma escolha legítima, mas baseada em uma fotografia que pode estar errada. Veja como votar bem.
Pesquisa muda o eleitor? Há evidência de um pequeno efeito de “ir com o vencedor” e de voto útil, e por isso alguns países proíbem a divulgação nos últimos dias. O Brasil permite até o dia da eleição. O efeito existe, mas é menor do que a reclamação de quem está atrás sugere. Veja o efeito de adesão.
Erro comum: “Pesquisa é previsão; se errou, foi manipulada.” Pesquisa é fotografia de um momento, com margem de erro; eleitores mudam e amostras falham. Erro não prova fraude; pesquisa sem registro e sem metodologia pública é outra história.
No debate público: Fake news, Voto obrigatório.

Para guardar

  • Pesquisa é fotografia do momento, não previsão.
  • Dentro da margem de erro, dois candidatos estão empatados, mesmo que um apareça na frente.
  • Pesquisa séria tem registro no TSE, metodologia pública e instituto com histórico.

Para pensar

Na próxima pesquisa que vir, procure: quantos entrevistados, qual margem, quando foi feita e quem pagou.

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