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Como testar se sua visão moral e política é boa?

Véu da ignorância, regra de ouro e universalidade: três testes de imparcialidade para saber se você defende um princípio ou só o seu lado.

IntermediárioÉtica e valoresMente e vieses5 min de leitura

Quase todo mundo acha que sua visão é justa. Como saber se ela é mesmo, ou se só favorece você e seu grupo? Não existe um teste que dê a resposta final, mas existem perguntas de imparcialidade que revelam muito: se a sua regra só parece boa enquanto você está do lado vencedor, há algo errado com ela.

Nesta lição, você vai

  • Aplicar três testes de imparcialidade: véu da ignorância, regra de ouro e universalidade
  • Perceber quando uma regra só parece boa porque favorece seu grupo
  • Conhecer os limites desses testes

Ajuda ter lido: Valores morais × decisões políticas, Mudar de ideia: quando é virtude.

Uma analogia

Imagine um juiz que apita o jogo do próprio filho. Até com boa intenção, ele tende a ver as faltas a favor do filho. Por isso, buscamos juízes de fora. Estes testes tentam fazer o mesmo na nossa cabeça: tirar a camisa do nosso time por um instante, para ver se a regra continua justa.

Explicando para uma criança

Sabe o truque para dividir um bolo de forma justa? Uma pessoa corta, e a outra escolhe primeiro. Assim, quem corta tenta fazer pedaços iguais. E, antes de fazer algo com um colega, você pode perguntar: “eu ia gostar se fizessem isso comigo?”. Esses são testes para saber se uma regra é justa.

Antes de ler: o que você faria?

Você defende que imigrantes não tenham acesso à saúde pública.

Aplique o véu da ignorância: sem saber se nasceria aqui ou lá, aceitaria a regra? E a regra de ouro? E a universalidade?

Ver o que a lição responde

Os três testes revelam se você defende um princípio ou só o seu lado. Eles não dão a resposta final, mas eliminam as respostas que dependem de saber de que lado se está. A lição aplica os três a um exemplo.

Teste 1: o véu da ignorância

O filósofo John Rawls propôs o seguinte, em Uma teoria da justiça (1971): imagine escolher as regras da sociedade sem saber quem você será nela. Você não sabe sua cor, seu sexo, sua renda, sua religião, sua saúde, nem seus talentos.

O véu serve para mostrar imparcialidade: tira da conta aquilo que só favorece você. Quem sabe que é rico pode achar a desigualdade natural. Quem sabe que é homem pode achar normal que as mulheres tenham menos direitos. Sem saber quem será, a escolha muda.

Pergunte-se: eu aceitaria essa lei se não soubesse se seria o policial ou o preso, o patrão ou o empregado, o eleitor do partido que venceu ou do que perdeu?

Teste 2: a regra de ouro

“Trate os outros como gostaria de ser tratado.” Essa ideia aparece em muitas tradições, com diferenças, entre elas o confucionismo, o judaísmo, o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo. Ela existe em duas formas:

FormaFraseNa política
NegativaNão faça aos outros o que não quer que façam a vocêNão apoie a censura que você não aceitaria contra si
PositivaFaça aos outros o que gostaria que fizessem a vocêDefenda para os outros a ajuda que gostaria de receber

O limite: nem todos querem as mesmas coisas, como já brincou George Bernard Shaw. Um fanático pode dizer que também aceitaria ser perseguido, se estivesse errado. Por isso, uma versão melhor pergunta o que aquela pessoa tem razão de querer, e não só o que você gostaria no lugar dela.

Teste 3: a universalidade das ideias

Uma regra moral boa deve valer para qualquer um em situação parecida, inclusive para você e para o seu adversário. Kant formulou isso ao perguntar se você poderia querer que a regra da sua ação valesse para todos. Autores como R. M. Hare e Peter Singer também defendem que julgar moralmente exige ir além do próprio ponto de vista.

Falha de universalidadeO teste
“Corrupção é inaceitável”, mas só a do outro partidoEu diria o mesmo se fosse o meu candidato?
“Respeito às urnas”, só quando se venceEu aceitaria o resultado se tivesse perdido?
“Liberdade de expressão”, só para quem concordaEu defenderia esse direito para quem me critica?
“Quem sofre importa”, só se for do meu grupoO que justifica a diferença, além de ser do meu grupo?

Diferenças só são aceitáveis quando há uma razão relevante. Tratar um adulto e um bebê de forma diferente na hora de votar é defensável. Fazer isso pela cor da pele não é, porque a cor não muda nada de relevante. É com esse tipo de pergunta que o círculo moral vem se ampliando: se o que importa é poder sofrer, a espécie é uma razão relevante?

Um exemplo, com os três testes

Proposta: “Quem é acusado de crime grave pode ser preso sem julgamento.”

  • Véu: sem saber se você seria um acusado inocente, aceitaria isso?
  • Regra de ouro: você aceitaria que fizessem isso com você ou com seu filho?
  • Universalidade: aceitaria essa regra nas mãos de um governo adversário?

Mesmo quem defende uma pena dura pode descobrir que quer julgamentos justos. Os testes não dizem qual pena é a certa, mas apontam o que não passa.

Outros testes úteis

TestePergunta
Melhor alternativaEntre todas as alternativas disponíveis, esta é a melhor? Não basta ser boa, nem criticar a dos outros: compare com as opções reais, inclusive a de não fazer nada.
ConsequênciasSe esta visão fosse aplicada de verdade, o que aconteceria? Quem ganharia e quem sofreria, no curto e no longo prazo? Inclua os efeitos indesejados, e não só as boas intenções.
FatosOs dados confirmam o que a minha visão prevê? Veja evidências.
CoerênciaMeus valores se contradizem em algum caso?
Casos difíceisO que minha regra manda no pior caso? Eu aceito isso?
Quem pagaQuem é prejudicado, e essa pessoa tem voz? Veja bem comum.
Melhor adversárioSei explicar o outro lado de um jeito que ele aceitaria?
Possibilidade de mudarQue prova me faria rever minha posição? Veja mudar de ideia.

Os limites destes testes

  • Não eliminam os valores: duas pessoas podem passar pelo véu e escolher de forma diferente, conforme o quanto temem o risco.
  • Críticas ao véu: comunitaristas dizem que ninguém escolhe sem história ou comunidade. Libertários, como Nozick, dizem que o véu ignora quem produziu o quê. Feministas e outros críticos perguntam quem fica de fora da mesa.
  • Viés continua existindo: podemos usar os testes para confirmar o que já pensávamos. Veja os vieses cognitivos.
  • Passar não prova que está certo: os testes eliminam visões ruins com mais facilidade do que confirmam as boas.

Faça o teste com a sua visão

  1. Escreva em uma frase a posição política que você mais defende.
  2. Quem perde com ela? Imagine-se nesse lugar.
  3. Você a aceitaria se o seu maior adversário estivesse no poder?
  4. Que caso difícil a coloca em apuros?
  5. Qual fato faria você mudar de ideia?
Para guardar: uma boa visão moral não é a que faz você se sentir certo. É a que continua de pé quando você troca de lugar com quem ela afeta.
Erro comum: “Imparcialidade é não ter opinião.” Imparcialidade é ter opiniões que sobrevivem à troca de lugar: regras que você aceitaria em qualquer posição. É o oposto de neutralidade; é um teste para as opiniões.
Pratique: Teste de troca. Você julgaria o mesmo ato de quem você rejeita?

Para guardar

  • Se a regra só parece boa enquanto você está do lado certo dela, não é um princípio: é um interesse.
  • Universalidade: você aceitaria a mesma regra aplicada pelo seu adversário?
  • Os testes não dão resposta final, mas revelam parcialidade com rapidez.

Para pensar

Pegue a posição política que você mais defende e passe-a pelos três testes. Ela sobrevive aos três?

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