Milícias são grupos armados formados em grande parte por policiais, ex-policiais, bombeiros e agentes penitenciários, que controlam territórios e cobram por “proteção”. Nasceram no Rio de Janeiro com o discurso de expulsar o tráfico e viraram outra forma de crime organizado, com uma diferença perigosa: estão dentro do Estado. Por isso o tema não é só segurança; é a relação entre polícia, política e crime.
Nesta lição, você vai
- Explicar o que são milícias e como controlam território, serviços e votos
- Entender a relação entre milícia, polícia e política, com o caso Marielle
- Distinguir a polícia honesta da milícia e saber o que funciona contra ela
Ajuda ter lido: Facções: como o tráfico tomou prisões e periferias, Mercado, mídia e crime no governo.
Uma analogia
Contratar um segurança para a rua e descobrir que ele mesmo é quem assalta as casas de quem não paga, e que ele tem a chave da delegacia. A milícia é o segurança que virou dono do bairro, com a farda de quem deveria proteger.
Explicando para uma criança
Imagine que os monitores do recreio começam a cobrar lanche de todo mundo para deixar brincar, e quem reclama fica de castigo. O pior é que eles eram quem deveria cuidar das crianças. É por isso que alguém de fora precisa fiscalizar quem fiscaliza.
Antes de ler: o que você faria?
Num bairro, a milícia expulsou o tráfico, e os roubos caíram. Agora cobra taxa de todos, vende gás mais caro e decide quem pode fazer campanha.
O bairro ficou mais seguro? Para quem?
Ver o que a lição responde
Trocou um dono armado por outro, com a vantagem, para o grupo, de ter acesso ao Estado. A lição mostra como funcionam as milícias e a mistura com polícia e política.
Como funcionam
- Taxa de segurança: comerciantes e moradores pagam para não serem atacados, pela própria milícia.
- Monopólio de serviços: gás, internet e TV clandestinas, transporte alternativo, água e até grilagem e construção de prédios irregulares. Em 2019, dois prédios construídos pela milícia desabaram na Muzema, no Rio, e mataram 24 pessoas.
- Controle do voto: candidatos ligados ao grupo fazem campanha livre no território, adversários não entram. É o curral eleitoral armado.
- Proteção oficial: membros que estão na polícia sabem das operações, desviam investigações e usam a farda como cobertura.
Levantamentos da Universidade Federal Fluminense com o Fogo Cruzado indicaram que, na região metropolitana do Rio, as milícias chegaram a controlar a maior parte da área dominada por grupos armados, mais do que o tráfico. Há grupos semelhantes em outros estados, com nomes diferentes.
A mistura entre polícia, política e crime
Em 2008, a CPI das Milícias da Assembleia do Rio, presidida por Marcelo Freixo, pediu o indiciamento de mais de 200 pessoas, entre elas vereadores, deputados e policiais. O caso mais conhecido é o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018. O executor confesso, Ronnie Lessa, é ex-policial militar; em 2024, ele e o comparsa Élcio de Queiroz foram condenados, e a Polícia Federal prendeu como suspeitos de mandar matar um deputado federal e um conselheiro do Tribunal de Contas, além de um ex-chefe da Polícia Civil, acusado de atrapalhar a investigação. O caso resume o problema: quem deveria investigar estava, segundo a acusação, do lado de quem mandou matar.
Por que acontece
| Causa | Como pesa |
|---|---|
| Estado ausente | Onde não há serviço público nem polícia confiável, quem oferece ordem manda, mesmo cobrando caro |
| Informalidade urbana | Terrenos sem título, transporte sem regulação e serviços clandestinos são mercados prontos para quem tem armas |
| Voto como negócio | Território controlado vira voto garantido, e voto vira proteção política e emendas |
| Impunidade interna | Corregedorias fracas e espírito de corpo protegem o policial que cruza a linha |
| Aplauso social | O discurso de “limpar” o bairro e o “bandido bom é bandido morto” dão às milícias apoio no começo |
Separar a polícia da milícia
A maioria dos policiais não é miliciana, e policiais estão entre as vítimas da violência: centenas são mortos todo ano, muitos de folga. Tratar a polícia inteira como criminosa é injusto e enfraquece quem trabalha certo. O que distingue uma polícia saudável é o controle: corregedoria independente, Ministério Público atuante no controle externo, câmeras corporais, investigação de mortes em operações e salários que não empurrem para o bico armado. Estudos em São Paulo associaram as câmeras corporais a uma queda forte da letalidade policial.
O que funciona contra as milícias
- Seguir o dinheiro: imóveis, cooperativas de transporte e empresas de fachada.
- Regularizar terra, transporte e serviços, para tirar o mercado das mãos do grupo armado.
- Investigação por órgãos de fora da polícia local, como Polícia Federal e Ministério Público.
- Barrar candidaturas ligadas a grupos armados e proteger o voto em áreas dominadas.
Veja também mercado, mídia e crime no governo e o debate sobre desmilitarização da polícia.
Para guardar
- A milícia é crime organizado de dentro do Estado: agentes que usam a farda para explorar o território.
- Território controlado vira voto, e voto vira proteção; por isso a milícia é um problema da democracia.
- O combate passa por seguir o dinheiro, regularizar serviços e ter controle externo forte sobre a polícia.
Para pensar
Que serviços do seu bairro são clandestinos (gás, internet, transporte, terreno)? Quem os controla? O que aconteceria se o Estado os regularizasse?
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