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Milícias: quando polícia, política e crime se misturam

De “autodefesa” a máfia: como agentes do Estado viraram donos de território, serviços e votos, o caso Marielle e o que separa a polícia honesta da milícia.

IntermediárioPerigosBrasil4 min de leitura

Milícias são grupos armados formados em grande parte por policiais, ex-policiais, bombeiros e agentes penitenciários, que controlam territórios e cobram por “proteção”. Nasceram no Rio de Janeiro com o discurso de expulsar o tráfico e viraram outra forma de crime organizado, com uma diferença perigosa: estão dentro do Estado. Por isso o tema não é só segurança; é a relação entre polícia, política e crime.

Nesta lição, você vai

  • Explicar o que são milícias e como controlam território, serviços e votos
  • Entender a relação entre milícia, polícia e política, com o caso Marielle
  • Distinguir a polícia honesta da milícia e saber o que funciona contra ela

Ajuda ter lido: Facções: como o tráfico tomou prisões e periferias, Mercado, mídia e crime no governo.

Uma analogia

Contratar um segurança para a rua e descobrir que ele mesmo é quem assalta as casas de quem não paga, e que ele tem a chave da delegacia. A milícia é o segurança que virou dono do bairro, com a farda de quem deveria proteger.

Explicando para uma criança

Imagine que os monitores do recreio começam a cobrar lanche de todo mundo para deixar brincar, e quem reclama fica de castigo. O pior é que eles eram quem deveria cuidar das crianças. É por isso que alguém de fora precisa fiscalizar quem fiscaliza.

Antes de ler: o que você faria?

Num bairro, a milícia expulsou o tráfico, e os roubos caíram. Agora cobra taxa de todos, vende gás mais caro e decide quem pode fazer campanha.

O bairro ficou mais seguro? Para quem?

Ver o que a lição responde

Trocou um dono armado por outro, com a vantagem, para o grupo, de ter acesso ao Estado. A lição mostra como funcionam as milícias e a mistura com polícia e política.

Como funcionam

  • Taxa de segurança: comerciantes e moradores pagam para não serem atacados, pela própria milícia.
  • Monopólio de serviços: gás, internet e TV clandestinas, transporte alternativo, água e até grilagem e construção de prédios irregulares. Em 2019, dois prédios construídos pela milícia desabaram na Muzema, no Rio, e mataram 24 pessoas.
  • Controle do voto: candidatos ligados ao grupo fazem campanha livre no território, adversários não entram. É o curral eleitoral armado.
  • Proteção oficial: membros que estão na polícia sabem das operações, desviam investigações e usam a farda como cobertura.

Levantamentos da Universidade Federal Fluminense com o Fogo Cruzado indicaram que, na região metropolitana do Rio, as milícias chegaram a controlar a maior parte da área dominada por grupos armados, mais do que o tráfico. Há grupos semelhantes em outros estados, com nomes diferentes.

A mistura entre polícia, política e crime

Em 2008, a CPI das Milícias da Assembleia do Rio, presidida por Marcelo Freixo, pediu o indiciamento de mais de 200 pessoas, entre elas vereadores, deputados e policiais. O caso mais conhecido é o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018. O executor confesso, Ronnie Lessa, é ex-policial militar; em 2024, ele e o comparsa Élcio de Queiroz foram condenados, e a Polícia Federal prendeu como suspeitos de mandar matar um deputado federal e um conselheiro do Tribunal de Contas, além de um ex-chefe da Polícia Civil, acusado de atrapalhar a investigação. O caso resume o problema: quem deveria investigar estava, segundo a acusação, do lado de quem mandou matar.

Por que acontece

CausaComo pesa
Estado ausenteOnde não há serviço público nem polícia confiável, quem oferece ordem manda, mesmo cobrando caro
Informalidade urbanaTerrenos sem título, transporte sem regulação e serviços clandestinos são mercados prontos para quem tem armas
Voto como negócioTerritório controlado vira voto garantido, e voto vira proteção política e emendas
Impunidade internaCorregedorias fracas e espírito de corpo protegem o policial que cruza a linha
Aplauso socialO discurso de “limpar” o bairro e o “bandido bom é bandido morto” dão às milícias apoio no começo

Separar a polícia da milícia

A maioria dos policiais não é miliciana, e policiais estão entre as vítimas da violência: centenas são mortos todo ano, muitos de folga. Tratar a polícia inteira como criminosa é injusto e enfraquece quem trabalha certo. O que distingue uma polícia saudável é o controle: corregedoria independente, Ministério Público atuante no controle externo, câmeras corporais, investigação de mortes em operações e salários que não empurrem para o bico armado. Estudos em São Paulo associaram as câmeras corporais a uma queda forte da letalidade policial.

O que funciona contra as milícias

  • Seguir o dinheiro: imóveis, cooperativas de transporte e empresas de fachada.
  • Regularizar terra, transporte e serviços, para tirar o mercado das mãos do grupo armado.
  • Investigação por órgãos de fora da polícia local, como Polícia Federal e Ministério Público.
  • Barrar candidaturas ligadas a grupos armados e proteger o voto em áreas dominadas.

Veja também mercado, mídia e crime no governo e o debate sobre desmilitarização da polícia.

Erro comum: “Milícia é a polícia fazendo o que a lei não deixa.” Milícia é crime organizado: extorsão, monopólio, grilagem e controle do voto. Ela não protege; explora. E a maioria dos policiais não é miliciana: confundir os dois enfraquece quem trabalha certo.
Pratique: Ficha do candidato. Um checklist que fica salvo no seu navegador.

Para guardar

  • A milícia é crime organizado de dentro do Estado: agentes que usam a farda para explorar o território.
  • Território controlado vira voto, e voto vira proteção; por isso a milícia é um problema da democracia.
  • O combate passa por seguir o dinheiro, regularizar serviços e ter controle externo forte sobre a polícia.

Para pensar

Que serviços do seu bairro são clandestinos (gás, internet, transporte, terreno)? Quem os controla? O que aconteceria se o Estado os regularizasse?

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