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Guerra ao terror: o custo de vinte anos

Depois do 11 de Setembro, os EUA declararam guerra a um método. Duas décadas, trilhões de dólares e centenas de milhares de mortos depois, o que se aprendeu sobre medo, poder e liberdades, e o que isso diz ao Brasil.

IntermediárioPerigosDemocracia5 min de leitura

Em 11 de setembro de 2001, ataques da Al-Qaeda mataram quase 3 mil pessoas nos Estados Unidos. A resposta foi uma “guerra ao terror”: duas invasões, prisões sem julgamento, tortura, vigilância em massa e drones em meia dúzia de países. O terrorismo é real, e a reação a ele virou um dos maiores estudos de caso sobre o que o medo faz com a política. Veja a lição sobre a política do medo.

Nesta lição, você vai

  • Conhecer a linha do tempo, de 2001 à retirada do Afeganistão
  • Fazer a conta: custo, mortes e resultados
  • Extrair as lições sobre medo, poder e liberdades

Ajuda ter lido: O perigo da política baseada no medo.

Uma analogia

É como alguém que, depois de um assalto, grade todas as janelas, instala câmeras apontadas para os vizinhos, contrata seguranças armados e nunca mais abre a porta. O assalto foi real, e o medo também. Mas vinte anos depois, a casa virou uma prisão, custou uma fortuna e os ladrões continuam na rua.

Explicando para uma criança

Quando algo muito assustador acontece, dá vontade de fazer qualquer coisa para que não aconteça de novo. Alguns países fizeram isso: brigaram com muita gente, prenderam pessoas sem provar nada e espiaram todo mundo. Muitos anos depois, viram que gastaram demais, machucaram muita gente e o problema não acabou.

Antes de ler: o que você faria?

Depois do 11 de Setembro, os EUA declararam guerra ao terror. Vinte anos, trilhões de dólares, centenas de milhares de mortos.

O que se aprendeu? O que o terrorismo é, e o que não é?

Ver o que a lição responde

Que guerra a um método não termina, que a reação pode custar mais do que o ataque e que o rótulo é usado contra adversários comuns. A lição faz a conta e traz o caso brasileiro.

O que aconteceu

QuandoO que
2001Invasão do Afeganistão, para derrubar o Talibã, que abrigava a Al-Qaeda. Aprovação do Patriot Act, que ampliou a vigilância
2002Abertura da prisão de Guantánamo, fora do alcance dos tribunais americanos
2003Invasão do Iraque, justificada por armas de destruição em massa que não existiam. Centenas de milhares de mortos e o vácuo que gerou o Estado Islâmico
2004 a 2014Fotos de Abu Ghraib, relatório do Senado sobre tortura da CIA, e as revelações de Edward Snowden sobre vigilância global
2011Morte de Osama bin Laden no Paquistão
2021Retirada do Afeganistão e volta do Talibã ao poder, vinte anos depois

A conta

O projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima em cerca de US$ 8 trilhões o custo das guerras pós-11 de Setembro para os Estados Unidos, com mais de 900 mil mortes diretas, a maioria de civis, e dezenas de milhões de deslocados no Afeganistão, Iraque, Síria, Paquistão e Iêmen. Não houve outro ataque da escala do 11 de Setembro nos EUA, e esse é o argumento dos defensores. Os críticos respondem que o terrorismo cresceu nos países invadidos, e que a Al-Qaeda e o Estado Islâmico recrutaram com as imagens de Abu Ghraib e dos drones.

O que se aprendeu

  • Guerra a um método não termina: terrorismo é uma tática, não um país; não há quem assine a rendição.
  • Direitos suspensos não voltam sozinhos: leis de emergência de 2001 continuam em vigor, e a vigilância se tornou permanente.
  • Tortura não funciona e corrói: o relatório do Senado americano concluiu que ela não produziu informação útil, e destruiu a autoridade moral do país.
  • Mentiras custam décadas: as armas do Iraque não existiam, e a desconfiança em governos e imprensa que vendeu a guerra ainda está aí.
  • O medo justifica tudo: cada medida foi vendida como temporária e necessária. Veja a lição sobre o fanatismo, que explica a Al-Qaeda, e a sobre a política do medo, que explica a reação.

O que o terrorismo é, e o que não é

Terrorismo é o uso de violência contra civis para causar medo e obter um objetivo político. A definição parece simples e é disputada: governos chamam de terroristas opositores armados, e movimentos chamam de resistência o que atinge civis. O direito internacional nunca fechou uma definição única. A regra útil é olhar o ato, e não a causa: atacar civis de propósito é terrorismo, seja qual for a bandeira, e isso vale para grupos e para Estados.

E o Brasil?

  • Lei Antiterrorismo (2016): aprovada antes da Olimpíada, define terrorismo por motivos de xenofobia, discriminação ou preconceito, e exclui, por pressão de movimentos sociais, manifestações políticas e reivindicatórias.
  • O debate sobre facções: há propostas para classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, e os EUA passaram a classificar facções latino-americanas assim em 2025. Defensores querem penas e instrumentos maiores; críticos apontam que facções buscam lucro, não política, e que o rótulo abre a porta a intervenções estrangeiras e a abusos contra moradores de favelas. Veja o debate sobre narcoterrorismo.
  • Atentados políticos: o 8 de janeiro de 2023 e a bomba no aeroporto de Brasília, em 2022, foram julgados como crimes contra a democracia, e não como terrorismo, pela definição da lei.
  • Vigilância: a experiência americana é o alerta: instrumentos criados contra o terrorismo acabam usados contra jornalistas, opositores e movimentos sociais, aqui como lá.

Onde a política entra

  1. Segurança e liberdade não são uma gangorra fixa: algumas medidas dão muita segurança por pouca liberdade, e outras, o contrário. Pergunte qual é o caso, com dados.
  2. Quem define o inimigo define quem perde direitos. Pergunte quem decide e com que controle.
  3. Medidas temporárias precisam de prazo escrito e de alguém que as revogue.
  4. O custo humano fora das fronteiras conta, mesmo quando não aparece no noticiário. Veja a lição sobre culpar o estrangeiro.
Para guardar: a guerra ao terror mostrou que o maior dano do terrorismo pode ser a resposta a ele. Um país que abandona as próprias regras para se defender entrega ao inimigo exatamente o que ele queria.
Erro comum: “Qualquer violência política é terrorismo.” Terrorismo é violência contra civis para espalhar medo e obter um fim político. Esticar o rótulo para protestos ou adversários é o que governos autoritários fazem, e esvazia a palavra.

Para guardar

  • Guerra a um método não termina: ninguém assina a rendição.
  • Direitos suspensos em uma emergência não voltam sozinhos.
  • Cada medida foi vendida como temporária e necessária: o medo justifica tudo.

Para pensar

Que medida “temporária” de segurança você aceitaria hoje, e que garantia teria de que ela acabaria?

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