Glossário de economia para a política
39 termos que aparecem em todo debate sobre juros, impostos, câmbio e desigualdade, com o que cada um significa e por que importa na política.
Boa parte das brigas políticas usa palavras de economia que poucos definem. Este glossário é o complemento da lição economia básica para entender política e dos indicadores internacionais.
Moeda e juros
- Selic
A taxa básica de juros da economia, definida pelo Banco Central a cada 45 dias. Serve de referência para todos os outros juros, do cartão ao financiamento da casa.
Na política: É o principal instrumento contra a inflação e um dos temas mais disputados entre governo e Banco Central. Veja o indicador da Selic.
- Copom
O Comitê de Política Monetária, formado pela diretoria do Banco Central, que decide a Selic por votação e publica uma ata explicando a decisão.
Na política: A ata do Copom é o documento mais lido do mercado, e diz o que o Banco Central pensa da inflação, do gasto público e do governo.
- Juro real
O juro descontada a inflação. Uma Selic de 10% com inflação de 5% é um juro real de cerca de 5%. É o que mede quanto o dinheiro rende ou custa de verdade.
Na política: O Brasil tem um dos juros reais mais altos do mundo, e é com ele, e não com a Selic nominal, que se deve comparar países.
- Meta de inflação
O alvo que o Banco Central persegue com os juros: 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo, definido pelo Conselho Monetário Nacional.
Na política: Quem define a meta é o governo; quem a persegue é o Banco Central. A separação é o cerne do debate sobre autonomia.
- Política monetária
O conjunto de decisões sobre juros e quantidade de moeda, a cargo do Banco Central, para controlar a inflação e, em alguns países, também o emprego.
Na política: Juro alto freia a inflação e o crescimento ao mesmo tempo, e é aí que entra a disputa política sobre o custo de cada escolha.
- Boletim Focus
A pesquisa semanal do Banco Central com as projeções de bancos e consultorias para inflação, juros, câmbio e PIB.
Na política: As expectativas de mercado pesam nas decisões do Copom e viram manchete; são previsões de quem tem interesse, não fatos.
- Autonomia do Banco Central
O regime, desde 2021, em que a diretoria do Banco tem mandatos fixos e decide os juros sem aprovação do governo, para cumprir a meta de inflação.
Na política: A evidência favorece a autonomia para controlar a inflação; o desenho e a prestação de contas seguem em debate. Veja o debate específico.
Contas públicas
- Déficit e superávit
Déficit é gastar mais do que se arrecada no ano; superávit é o contrário. O resultado nominal inclui os juros da dívida; o primário, não.
Na política: Déficits seguidos aumentam a dívida; mas cortar gasto em recessão pode piorar a economia. O quanto e o quando são a disputa.
- Resultado primário
A diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, sem contar os juros da dívida. É a conta que mostra se o governo está ou não alimentando a dívida.
Na política: A meta de primário é o número que o arcabouço fiscal fixa e que o mercado cobra; descumpri-la encarece a dívida.
- Dívida pública
Tudo o que o governo deve a quem comprou seus títulos. Medida em relação ao PIB, em versão bruta ou líquida.
Na política: Dívida alta com juros altos consome o orçamento; a conta é paga com imposto, inflação ou corte. Veja o indicador.
- Arcabouço fiscal
A regra de 2023 que limita o crescimento do gasto federal a uma fração do crescimento da receita, com metas de resultado primário. Substituiu o teto de gastos.
Na política: Toda regra fiscal é uma escolha sobre quanto o governo pode gastar e quem decide; mudá-la é um dos maiores conflitos de cada mandato.
- Carga tributária
O total de impostos, taxas e contribuições arrecadados por União, estados e municípios em relação ao PIB: cerca de um terço, no Brasil.
Na política: Comparar carga sem comparar o que volta em serviços e a quem ela pesa mais é a confusão mais comum do debate sobre impostos.
- Regressividade
Um imposto é regressivo quando pesa proporcionalmente mais sobre quem ganha menos, como os impostos sobre consumo; progressivo quando pesa mais sobre quem ganha mais, como o imposto de renda com alíquotas crescentes.
Na política: O Brasil tributa muito o consumo e pouco a renda e o patrimônio, e por isso os pobres pagam proporção maior da renda em impostos.
- Renúncia fiscal
O que o governo deixa de arrecadar por isenções, benefícios e regimes especiais: o chamado gasto tributário.
Na política: É um gasto invisível, de centenas de bilhões por ano, que favorece setores com lobby e quase nunca é avaliado. Veja o debate sobre subsídios.
- Despesa obrigatória e discricionária
Obrigatória é a despesa fixada em lei, como aposentadorias e salários; discricionária é a que o governo pode decidir, como obras e programas novos.
Na política: Cerca de 90% do gasto federal é obrigatório, e é por isso que promessas de cortar ou dobrar gastos precisam dizer onde.
- Risco-país e grau de investimento
O risco-país é o prêmio que investidores exigem para emprestar ao governo, medido por índices como o CDS e o EMBI. Grau de investimento é a nota das agências de risco que classifica o país como seguro.
Na política: O Brasil perdeu o grau de investimento em 2015 e paga juros maiores por isso; recuperá-lo é meta declarada de vários governos.
Comércio e câmbio
- Câmbio
O preço de uma moeda em outra. No Brasil, flutua desde 1999, com intervenções do Banco Central para suavizar oscilações.
Na política: Nenhum governo controla o câmbio flutuante, embora muitos prometam. Veja o indicador de câmbio.
- Balança comercial
A diferença entre exportações e importações de bens. Superávit quando se exporta mais; déficit quando se importa mais.
Na política: O Brasil tem superávits recordes puxados por soja, minério e petróleo, e importa produtos de mais tecnologia: o padrão alimenta o debate sobre desindustrialização.
- Reservas internacionais
Os dólares que o Banco Central guarda, cerca de US$ 350 bilhões, para intervir no câmbio e garantir pagamentos em crises.
Na política: São um seguro caro, que rende menos do que a dívida custa; o tamanho ideal é disputado.
- Tarifa e protecionismo
Tarifa é o imposto sobre importação; protecionismo é usar tarifas e barreiras para proteger a produção nacional da concorrência externa.
Na política: O Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo, e o debate opõe proteger empregos a baratear produtos. As tarifas americanas de 2025 trouxeram o tema de volta.
- Paridade de poder de compra
Um ajuste que compara rendas entre países pelo que o dinheiro compra em cada um, e não pelo câmbio. US$ 100 compram mais no Brasil do que na Suíça.
Na política: Comparações de PIB per capita e de pobreza entre países só fazem sentido com esse ajuste.
Desigualdade e bem-estar
- Índice de Gini
Um número de 0 a 1 que resume a desigualdade de renda: 0 é igualdade total, 1 é uma pessoa com tudo.
Na política: O Brasil está entre os dez países mais desiguais do mundo. Veja o indicador.
- Linha de pobreza
O valor de renda abaixo do qual alguém é considerado pobre. Há várias: a de pobreza extrema internacional, as do Banco Mundial para países de renda média e as dos programas sociais brasileiros.
Na política: Mudar a linha muda o número de pobres, e cada lado do debate escolhe a linha que lhe convém.
- Transferência de renda
Pagamento direto do Estado a famílias, como o Bolsa Família, em geral com condições, como manter os filhos na escola.
Na política: É das políticas mais avaliadas do mundo, com efeitos documentados em pobreza e saúde infantil. Veja o debate sobre programas sociais.
- Salário mínimo
O menor valor que a lei permite pagar por um mês de trabalho. No Brasil, reajustado todo ano, com regra que combina inflação e crescimento do PIB.
Na política: O reajuste move aposentadorias, benefícios e o orçamento inteiro, e seu efeito no emprego depende do tamanho do aumento.
- Informalidade
Trabalho sem carteira assinada nem contribuição à Previdência: cerca de 40% dos ocupados no Brasil.
Na política: Políticas trabalhistas só alcançam quem está formalizado; metade do país fica de fora de qualquer regra.
- Produtividade
Quanto se produz por hora trabalhada ou por trabalhador. É o que, no longo prazo, determina salários e crescimento.
Na política: A produtividade brasileira está estagnada há décadas, e é a explicação mais aceita para o crescimento baixo; as causas são disputadas.
Como a economia é estudada
- Econometria
O uso de estatística para testar teorias econômicas com dados reais: estimar quanto uma variável afeta outra, com margem de erro, controlando o resto.
Na política: É a ferramenta por trás de quase todo “estudo mostra que” sobre salário mínimo, programas sociais ou juros. Saber o que ela pode e não pode dizer é saber ler o debate.
- Correlação e causalidade
Duas coisas que andam juntas não necessariamente uma causa a outra: pode haver uma terceira causa, ou a relação pode ser inversa. Correlação é o que os dados mostram; causalidade exige método.
Na política: Governos atribuem a si resultados que vieram do mundo, e a oposição faz o contrário; separar causa de coincidência é o cerne da avaliação de políticas.
- Experimento aleatorizado
Um teste em que um grupo sorteado recebe uma política e outro não, para medir o efeito sem o viés de quem escolhe participar. É o padrão-ouro da avaliação.
Na política: Programas de transferência de renda, educação e saúde foram testados assim; o Nobel de 2019 premiou o método. Veja a lição sobre evidências.
- Experimento natural
Uma situação em que o acaso ou uma regra cria grupos comparáveis sem sorteio: uma lei que vale em um estado e não no outro, um corte de idade, uma mudança abrupta.
Na política: É assim que se mede o efeito de reformas que não podem ser sorteadas, como mudanças de salário mínimo ou de regras eleitorais.
- Ceteris paribus
Expressão latina para “mantido o resto constante”. Toda afirmação econômica do tipo “se X subir, Y cai” supõe que nada mais mudou.
Na política: Na vida real, tudo muda ao mesmo tempo; por isso previsões econômicas erram e por isso a econometria tenta controlar o resto.
- Custo de oportunidade
O valor da melhor alternativa que se abriu mão ao fazer uma escolha. O custo de uma obra não é só o dinheiro, e sim o que esse dinheiro faria em outro lugar.
Na política: É a pergunta que falta em quase toda promessa: o que deixa de ser feito para fazer isso?
- Externalidade
Um efeito de uma atividade sobre quem não participou dela: a poluição de uma fábrica, o barulho de um bar, a vacina que protege os vizinhos. Pode ser negativa ou positiva.
Na política: É a justificativa econômica padrão para regular, taxar ou subsidiar; sem ela, o mercado cobra de quem não causou.
- Bem público
Algo que todos usam e de que ninguém pode ser excluído, como a defesa nacional, a iluminação de rua e o ar limpo. Como ninguém pagaria voluntariamente, o mercado não o produz.
Na política: É a razão econômica mais básica para a existência de impostos. Veja a lição sobre imposto e roubo.
- Elasticidade
Quanto uma coisa muda quando outra muda: se o preço do cigarro sobe 10% e o consumo cai 4%, a elasticidade é de 0,4.
Na política: Decide se um imposto reduz o consumo ou só arrecada, e se um aumento de salário mínimo destrói empregos ou não.
- Macro e microeconomia
Macroeconomia estuda o conjunto: inflação, juros, PIB, emprego, câmbio. Microeconomia estuda decisões de pessoas, empresas e mercados específicos.
Na política: Boa parte do debate político é macro; boa parte das políticas que funcionam é micro, desenhada setor a setor.
- Modelo
Uma simplificação da economia em equações ou regras, usada para prever e para testar ideias. Todo modelo deixa coisas de fora de propósito.
Na política: Previsões de PIB, de inflação e de impacto de reformas vêm de modelos, e discordâncias entre economistas costumam ser sobre que modelo usar.
- Nowcast e projeção
Nowcast é a estimativa do que está acontecendo agora, antes dos dados oficiais; projeção é a estimativa do futuro, com cenários e margens de erro.
Na política: Projeções do Focus, do FMI e do governo erram com regularidade; vale olhar o histórico de acertos de cada fonte.