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Intermediário / Como a mente nos engana

Sofismo: vencer sem ter razão

A política muitas vezes se vence na aparência ou no grito. Vendedores de ideias manipulam a verdade para acumular capital político e social.

IntermediárioMente e viesesDesinformação8 min de leitura

Muita gente na política não está tentando descobrir o que é verdade. Está tentando ganhar. Quando o objetivo é vencer, e não acertar, a verdade vira só mais uma ferramenta, usada quando ajuda e deixada de lado quando atrapalha.

Nesta lição, você vai

  • Reconhecer os truques de quem quer vencer sem ter razão
  • Diferenciar mentira, embromação e cinismo, com Frankfurt
  • Defender-se dos vendedores de ideias

Ajuda ter lido: Fake news e checagem de fatos, Palavras em disputa: liberdade e conservar.

Uma analogia

Um sofista é como um vendedor muito bom: faz o carro velho parecer novo, troca de assunto quando você vê a ferrugem e sai aplaudido. Você compra pela conversa, e só descobre o problema no caminho para casa.

Explicando para uma criança

Alguém ganha uma discussão falando alto, fazendo piada do outro e mudando de assunto. Parece que ganhou, mas não mostrou que estava certo. Ganhar uma briga de palavras é diferente de ter razão.

Antes de ler: o que você faria?

Num debate, o candidato responde a uma pergunta sobre saúde falando de segurança, gritando e chamando o rival de corrupto. A plateia aplaude.

Ele respondeu? O que fez? Como se chama cada truque?

Ver o que a lição responde

Mudou de assunto, apelou à emoção e atacou a pessoa: sofismas. A lição mostra os truques mais comuns de quem quer vencer sem ter razão, e a ferramenta treina o reconhecimento.

De onde vem a palavra

Os sofistas eram professores da Grécia antiga, como Protágoras e Górgias, que ensinavam retórica a quem queria se destacar nas assembleias. Muito do que sabemos sobre eles vem de Platão, seu grande crítico, que os acusava de ensinar a parecer sábio em vez de ser. Atribui-se a eles a fama de “tornar forte o argumento fraco”.

A imagem é injusta em parte: alguns sofistas foram pensadores sérios, e saber argumentar é valioso na democracia. Mas a palavra ficou: sofisma é um argumento que parece bom e engana.

Como vencer um debate sem precisar ter razão

No século XIX, Arthur Schopenhauer escreveu a Dialética Erística, publicada no Brasil como Como vencer um debate sem precisar ter razão. O livro lista 38 estratagemas. A leitura serve mais como vacina do que como manual: quem conhece os truques cai menos neles.

Uma observação incômoda: os seres humanos parecem ser naturalmente vaidosos. Quando entram em uma discussão, raramente estão interessados na verdade. O objetivo principal passa a ser a vitória pessoal e a defesa do próprio ego. Por isso, continuamos defendendo uma posição mesmo depois de perceber que estamos errados: admitir o erro parece uma derrota. Vale notar em você mesmo: nesta conversa, eu quero descobrir o que é verdade, ou quero ganhar? Veja mudar de ideia.
TruqueComo funcionaNa política
Ampliar o que o outro disseEsticar a afirmação até ficar fácil de atacar“Quer regular armas? Então quer desarmar todo mundo”
Jogar com as palavrasUsar o mesmo termo em sentidos diferentes“Liberdade” e “justiça” em sentidos em disputa
Irritar o adversárioQuem perde a calma argumenta piorProvocação em debate na TV
Falar para a plateiaFazer o público rir do outro, sem responderFrase pronta para virar corte de vídeo
Falsa autoridadeCitar quem parece saber“Especialistas dizem”, sem dizer quem
Declarar vitóriaAnunciar que venceu, mesmo sem ter vencido“Como todos já sabem, ficou provado…”
Atacar a pessoaÚltimo recurso: deixar o assunto e ofender“Olha quem está falando”

Vendedores de ideias

A comparação é antiga: no diálogo Protágoras, Platão compara o sofista a um comerciante que vende alimento para a alma, elogiando a mercadoria sem saber se ela faz bem a quem compra. Hoje, muitos políticos e influenciadores funcionam como vendedores de ideias. Oferecem o que o público quer ouvir, e o lucro nem sempre é dinheiro:

LucroO que éExemplos
Capital políticoCrédito que pode virar poder: reputação, confiança e capacidade de mobilizarVotos, cargos, apoio de aliados, força para negociar
Capital socialRelações e redes que abrem portasContatos, seguidores, grupos fiéis, convites, parcerias
DinheiroGanho direto ou indiretoDoações, publicidade, cursos, emendas e cargos para aliados

Os conceitos são discutidos pelo sociólogo Pierre Bourdieu, para quem esses capitais podem ser convertidos uns nos outros: seguidores viram votos, votos viram cargos, cargos viram contatos e dinheiro. Por isso, quem vende ideias tem um incentivo para escolher a mensagem que mais rende, e não a mais verdadeira.

Nem toda busca por apoio é desonesta: para mudar algo na política, é preciso ter apoio. A pergunta é outra: a pessoa usa o capital para defender o que acredita, ou defende o que acumula capital? Um sinal é ver se ela já contrariou o próprio público quando custava caro.

Ganhar na aparência ou no grito

Muitas vezes, quem vence não tem os melhores argumentos, as melhores evidências nem os melhores valores. Tem a melhor imagem, a voz mais alta ou a frase mais fácil de lembrar.

  • O rosto pesa. Em estudo publicado na Science em 2005, Alexander Todorov e colegas mostraram fotos de candidatos ao Senado e à Câmara dos EUA a pessoas que não os conheciam. Julgando a competência em segundos pela aparência, elas apontaram o vencedor em 68,8% das disputas ao Senado de 2004. Um estudo de 2007 encontrou resultado parecido.
  • A imagem na TV. O debate Kennedy × Nixon, de 1960, virou símbolo: a aparência abatida de Nixon teria pesado. A história de que quem ouviu no rádio preferiu Nixon é muito repetida, mas contestada, o que mostra como é fácil acreditar em uma boa narrativa.
  • Quem grita ocupa o tempo. Interromper, repetir e falar por cima impede a resposta e passa uma impressão de força, mesmo sem nenhum argumento novo.
  • Inundar é mais fácil do que refutar. Lançar dez afirmações falsas leva segundos, e corrigir cada uma leva minutos. A tática tem até nome em inglês: Gish gallop.
  • O corte vale mais que o debate. Nas redes, a frase agressiva de 15 segundos alcança mais gente do que a resposta cuidadosa. Assim, muita gente “assiste” a um debate só pelos melhores momentos do próprio lado.
O que costuma impressionarO que deveria pesar
Segurança ao falarEstar certo: ter os fatos a favor
Voz alta e interrupçõesResponder ao que foi perguntado
Frase de efeitoMelhores argumentos: como funciona e quem paga?
Aparência, carisma e simpatiaHistórico: o que fez e como votou
Humilhar o adversárioMelhores valores: quem a proposta protege, e quem deixa de fora?
Quantidade de afirmaçõesMelhores evidências: o que os estudos mostram?

Isso é humano: decidimos rápido e a atenção é limitada. Carisma também não é defeito, e saber comunicar faz parte da política. Só não prova que alguém tem razão. Por isso, “ganhou o debate” quase sempre quer dizer “pareceu melhor”, e não “estava certo”.

Faça o teste: depois de um debate, leia a transcrição, sem imagem nem som. Veja o que sobra quando tiram o tom de voz, e confira os números nas agências de checagem.

Dizer o que dá voto

  • Posições conforme a pesquisa. A fala muda segundo a plateia: uma coisa para a igreja, outra para a universidade, outra para o empresário.
  • Promessa que o cargo não permite. Quem a faz muitas vezes sabe que não poderá cumprir.
  • Inimigo inventado. Criar um medo rende mais do que resolver um problema real.
  • Falar para a bolha. Nas redes, uma frase agressiva pode valer mais que uma verdade cheia de ressalvas.
  • Convicção de fachada. Há candidatos que mudam de pauta quando trocam de partido. Isso nem sempre é desonesto, mas merece explicação.

Indiferença à verdade

O filósofo Harry Frankfurt fez uma distinção útil. O mentiroso conhece a verdade e tenta escondê-la. Já o embromador, no livro chamado On Bullshit, nem se importa com ela: só quer causar um efeito. Segundo Frankfurt, isso é ainda mais perigoso, porque desgasta a própria ideia de verdade. Veja o Ranking da mentira e a lição sobre checagem.

Cinismo: quando a mentira nem precisa convencer

O cinismo aparece dos dois lados da conversa, e os dois se alimentam.

O político cínicoO cidadão cínico
Sabe que a promessa é impossível, e promete assim mesmo“Todo político mente, então tanto faz”
Condena no adversário o que faz no próprio governo“O meu rouba, mas o seu também”
Foi desmentido, e repete a mesma frase no dia seguinteSabe que é mentira, e compartilha porque ajuda o seu lado
Usa causas nobres só enquanto dão votoDesconfia de tudo, e para de checar

É aqui que está o maior estrago. Quem mente espera que acreditem nele. O cínico pode se contentar com menos: que ninguém acredite em mais nada. Hannah Arendt alertou para esse risco ao estudar o totalitarismo: quando as pessoas são expostas a mentiras constantes, podem deixar de distinguir o verdadeiro do falso, e ficar mais fáceis de governar. Se “são todos iguais”, ninguém é punido por mentir mais, e sobra pouco motivo para cobrar quem mente.

Ceticismo não é cinismo. O cético pede provas e muda de ideia quando elas aparecem. O cínico já decidiu que nada vale a pena, e por isso não confere nada. Políticos não mentem todos na mesma medida, e há como medir: veja o Ranking da mentira e a lição sobre mudar de ideia.

Mudar de ideia não é sofisma

Mudança honestaOportunismo
Explica o que a fez mudarFinge que sempre pensou assim
Vem de novos fatos ou argumentosVem na véspera da eleição, ou com a troca de aliança
Pode custar votosSempre rende votos
Admite o erro anteriorAtaca quem aponta a mudança

Também não dá para ler a mente de ninguém. Saber se alguém acredita no que diz é quase impossível. O que dá para fazer é comparar fala, voto e passado.

Como se defender

  1. Volte à pergunta. “Isso não responde ao que foi perguntado.”
  2. Peça o exato. “Quem disse? Onde? Quanto?”
  3. Confira o que a pessoa fez. Veja como os partidos votaram.
  4. Vigie seu próprio lado. Quase todos notamos o truque do adversário, e ignoramos o do nosso. Faça o teste de troca.
  5. Não use os truques. Ganhar assim ensina a plateia a pensar pior.
Erro comum: “Quem venceu o debate tem razão.” Vencer na aparência ou no grito não é ter razão; sofistas vendem ideias como vendem produtos. Reconhecer o truque é o que protege o público.
Pratique: Que truque é esse?. Identifique os sofismas mais comuns em frases políticas.

Para guardar

  • Quando o objetivo é vencer, a verdade vira ferramenta: usada quando ajuda, descartada quando atrapalha.
  • O embromador não mente: é indiferente à verdade, o que pode ser pior.
  • Mudar de ideia com argumento não é sofisma; mudar conforme a plateia, sim.

Para pensar

Lembre de um político que você admira: ele já mudou de discurso conforme a plateia? Você notou na hora?

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