Mídia alternativa não é um problema em si. Há veículos independentes que fazem jornalismo sério, cobrem o que os grandes ignoram e fiscalizam o poder. O perigo surge quando o veículo serve a um extremo político: o fato passa a ser escolhido, cortado ou inventado para confirmar a causa.
Nesta lição, você vai
- Distinguir mídia independente séria de mídia de torcida
- Reconhecer as técnicas mais comuns de distorção
- Aplicar um teste rápido de confiabilidade
Ajuda ter lido: Fake news e checagem de fatos.
Uma analogia
Uma mídia alternativa séria é como um médico que dá uma segunda opinião e mostra os exames. A extremista é como quem diz que todos os médicos mentem, só ele sabe a verdade, e, por coincidência, vende o único remédio.
Explicando para uma criança
Um jornalzinho da escola pode contar coisas que ninguém contou, e isso é ótimo. Mas, se ele só fala bem dos amigos do dono e inventa histórias sobre os outros, ele deixa de contar o que aconteceu. Por isso é bom ler mais de um.
Antes de ler: o que você faria?
Um canal “independente” só publica notícias que confirmam um lado, nunca corrige erros e chama a imprensa inteira de mentirosa.
Ele é independente ou de torcida? Como saber?
Ver o que a lição responde
Pelo método: corrige? mostra fontes? publica o que contraria o próprio lado? A lição mostra as técnicas comuns da mídia alternativa extremista, nos dois extremos.
Independente ou de torcida?
| Jornalismo independente | Propaganda com cara de jornal | |
|---|---|---|
| Erros | Publica correções | Apaga em silêncio, ou nunca admite |
| Fontes | Mostra documentos e ouve o outro lado | Cita a si mesmo e aliados |
| Quem paga | Informa o financiamento | Esconde, ou diz que é “neutro” |
| Críticas ao próprio lado | Existem | Quase nunca aparecem |
| Tom | Informa | “O que a mídia esconde de você” |
As técnicas mais comuns
- Revisionismo e negacionismo: revisar a história é normal, e os historiadores fazem isso com novas provas. O problema é apagar fatos bem documentados para favorecer uma causa.
- Fatos fora de contexto: uma fala ou um vídeo reais, cortados para dizer o contrário.
- “Especialistas” escolhidos: aparência de rigor, com o resultado definido antes.
- Desacreditar todo o resto: se toda a imprensa “mente”, só sobra o seu canal. É o caminho das câmaras de eco.
- Lucro com a indignação: raiva gera cliques, e clique gera dinheiro.
Isso acontece nos dois extremos
| Lado | Exemplos de revisionismo e distorção |
|---|---|
| Extrema direita | Suavizar a tortura e a censura da ditadura de 1964. Pesquisadores publicaram críticas acadêmicas nesse sentido ao filme 1964: o Brasil entre armas e livros, da Brasil Paralelo, e apontam vínculos com a extrema direita apesar da pretensa neutralidade. |
| Extrema esquerda | Negar ou minimizar os expurgos de Stálin e a fome do Holodomor, e justificar qualquer ditadura que se diga anti-imperialista. |
O caso Brasil Paralelo
O maior exemplo brasileiro de revisão narrativa a serviço de uma causa é a Brasil Paralelo, produtora fundada em 2016 em Porto Alegre, que se apresenta como apartidária, vende assinaturas e produz documentários de alta qualidade técnica, com milhões de visualizações. Suas séries sobre a história do Brasil, a ditadura de 1964, a educação e a pandemia seguem um roteiro reconhecível: a história do país contada como decadência causada pela esquerda, pelo “marxismo cultural” e pela imprensa; a ditadura militar como reação compreensível a uma ameaça comunista, com a tortura e a censura minimizadas; e a tradição, a família e a religião como o que foi perdido e precisa ser restaurado.
Historiadores e entidades da área publicaram críticas detalhadas ao documentário 1964: o Brasil entre armas e livros: entrevistados quase só de um campo, omissão de fontes documentais conhecidas, como o relatório da Comissão Nacional da Verdade, e interpretações contestadas apresentadas como consenso. Pesquisadores apontam ainda a proximidade da produtora com figuras e pautas da extrema direita, apesar da neutralidade declarada. A empresa responde que oferece “o outro lado” que a escola e a mídia esconderiam.
O que faz dela o exemplo mais claro não é defender o conservadorismo, o que é legítimo, e sim o método: a aparência de documentário neutro para vender uma só narrativa, sem contraditório, com uma produção caprichada que empresta credibilidade ao conteúdo. É a ferramenta de revisão narrativa do ultraconservadorismo e do reacionarismo brasileiros, do mesmo modo que canais de esquerda romantizaram ditaduras “anti-imperialistas”. Aplique a ela o teste do fim desta lição: quem paga, quem é ouvido, que fontes são omitidas e se já houve correção pública.
O dinheiro também pesa. O Aos Fatos mostrou um site, o Terra Brasil Notícias, entre os mais compartilhados em grupos de mensagens e lucrando com anúncios, que apagou posts depois da reportagem. No debate sobre o Jornal da Cidade Online, o Banco do Brasil tirou anúncios depois de ordem do TCU, enquanto Carlos Bolsonaro defendia o site como “mídia alternativa”.
Existe um ranking oficial de fake news?
Não. Nenhum órgão público mantém um ranking oficial, e talvez nem seja bom que o governo decida o que é verdade. O que existe são medições independentes, cada uma com seu método e seus limites:
| Medição | O que avalia |
|---|---|
| Ranking da mentira (Observatório Lupa) | Políticos brasileiros, por frases checadas como falsas |
| Radar Aos Fatos | Conteúdos e redes de desinformação em circulação |
| NewsGuard | Confiabilidade de sites, por critérios públicos. É um serviço privado |
| Global Disinformation Index | Risco de desinformação de sites de notícias. No estudo do Brasil, metade da amostra teve risco alto ou máximo |
Nenhuma dessas listas é a palavra final. Checadores só avaliam o que escolhem checar, e isso afeta a comparação. Use os rankings como pista e confira o método.
Bons exemplos
Veículos independentes, com método aberto, mesmo quando têm um ponto de vista declarado: Agência Pública, Repórter Brasil, Marco Zero, Aos Fatos e Ponte. Nenhum é infalível: vale aplicar a eles o mesmo teste.
O teste rápido
- Quem paga?
- Já publicou uma correção?
- Já criticou o próprio lado?
- Dá para conferir a fonte original?
- Outros veículos, de linhas diferentes, confirmam?
Para guardar
- Mídia alternativa não é o problema; mídia a serviço de um extremo é.
- Sinais: só erra para um lado, nunca corrige, trata o adversário como inimigo.
- O teste: o veículo já publicou algo ruim sobre o próprio lado?
Para pensar
Escolha o canal de notícias que você mais consome: quando foi a última vez que ele criticou o lado que defende?
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