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Políticas baseadas em evidências

Tratar leis como hipóteses: testar, medir e corrigir. De onde vem a ideia, como funciona, seus limites e por que os políticos resistem.

AvançadoEstado e economiaDemocracia6 min de leitura

A ideia é simples: tratar políticas públicas como hipóteses. Em vez de adotar um programa porque soa bem, testá-lo, medir os resultados e manter o que funciona. O Nobel de Economia de 2019 premiou Banerjee, Duflo e Kremer por experimentos assim contra a pobreza.

Nesta lição, você vai

  • Entender a ideia de tratar leis como hipóteses
  • Conhecer a hierarquia das evidências e o ciclo na prática
  • Ver os limites e por que os políticos resistem

Ajuda ter lido: Valores morais × decisões políticas, Como comparar projetos políticos.

Uma analogia

Um remédio novo não chega à farmácia só porque o fabricante jura que é bom. Ele é testado: um grupo toma o remédio, outro não, e alguém compara os resultados. Se fizer mal, sai de cena. Leis e programas também afetam a vida de milhões de pessoas, mas muitas vezes são aplicados sem esse teste. Políticas baseadas em evidências tentam levar esse cuidado para o governo.

Explicando para uma criança

Sua turma quer saber se as plantas crescem mais com música. Vocês pegam vasos iguais, sorteiam quais ficam com música e cuidam de todos do mesmo jeito. Depois, medem. Assim ninguém precisa brigar sobre quem acha o quê: dá para olhar o resultado. Com as regras de uma cidade, os adultos podem fazer algo parecido. Só que as plantas não dizem o que é mais justo: isso ainda é preciso conversar.

Antes de ler: o que você faria?

Um programa social parece funcionar: quem participa melhora. Mas quem participa é quem já estava motivado.

O programa funcionou? Como saber de verdade?

Ver o que a lição responde

Comparar participantes com não participantes não basta; é preciso um grupo de comparação equivalente (sorteio, por exemplo). A lição mostra a hierarquia das evidências, o ciclo testar-medir-corrigir e os limites.

De onde vem a ideia

QuandoO que aconteceu
1747O médico James Lind compara tratamentos entre marinheiros com escorbuto, e as frutas cítricas se destacam. É um marco inicial dos testes comparativos.
Anos 1960 e 1970O psicólogo Donald Campbell defende, em “Reforms as Experiments” (1969), que reformas sociais sejam avaliadas como experimentos. Os EUA testam uma renda garantida com famílias reais.
1972O médico Archie Cochrane critica, em Effectiveness and Efficiency, a falta de provas para muitos tratamentos.
Anos 1990Surge o termo “medicina baseada em evidências”, e a Colaboração Cochrane passa a reunir os estudos em revisões sistemáticas.
1997O México lança o Progresa, de transferência de renda, e o avalia com sorteio na ordem de entrada das comunidades. Foi o primeiro grande experimento de política social em um país de renda baixa ou média, e ajudou a espalhar esse tipo de programa.
1999O governo Blair, no Reino Unido, adota o discurso de “o que importa é o que funciona” no documento Modernising Government. A expressão ganha o mundo. Na mesma época, nasce a Colaboração Campbell, para fazer nas políticas sociais o que a Cochrane fazia na saúde.
Anos 2000 e 2010Surgem o J-PAL (2003), a rede britânica What Works e, nos EUA, a Evidence Act (2018).
2019 a 2021No Brasil, o decreto 9.834/2019 cria o CMAP, conselho de monitoramento e avaliação. A Emenda Constitucional 109/2021 coloca a avaliação de políticas públicas entre as obrigações da administração pública.

Ou seja: a ideia veio em boa parte da medicina, foi levada às ciências sociais e virou programa de governo. Isso explica sua força e também um dos debates: a sociedade é mais complicada do que um ensaio clínico.

A hierarquia das evidências

  1. Revisões sistemáticas reúnem muitos estudos, inclusive os que não deram o resultado esperado.
  2. Experimentos aleatorizados: grupos sorteados recebem ou não a política. O sorteio torna os grupos parecidos, então a diferença tende a vir da política.
  3. Experimentos naturais: comparações aproveitando uma mudança real, como uma lei em um estado e não em outro.
  4. Correlações simples: úteis, mas não provam causa. Cidades com mais policiais podem ter mais crimes porque a polícia foi enviada a elas.
  5. Casos e opiniões: o nível mais fraco, ainda que ajudem a formular perguntas.

A ordem é uma regra prática, e não uma lei. Um experimento natural bem feito pode valer mais que um experimento ruim, e para perguntas sobre por que algo acontece, entrevistas e estudos qualitativos são indispensáveis.

O ciclo na prática

  1. Definir o problema e o que seria sucesso, antes de começar.
  2. Ver o que já se sabe em outros lugares.
  3. Testar em escala menor, com grupo de comparação, quando for possível.
  4. Medir custos e efeitos, inclusive os indesejados.
  5. Publicar, mesmo se der errado.
  6. Decidir: ampliar, ajustar ou encerrar.

Exemplos

CasoO que se aprendeu
Scared Straight (EUA)Levar jovens para visitar presídios parecia óbvio, e o programa era popular. Revisões de experimentos concluíram que ele não reduz a criminalidade e pode até aumentá-la. A intuição estava errada.
Progresa (México)A avaliação sustentou a continuidade do programa mesmo após a troca de governo, e o modelo inspirou outros países.
Bolsa Família (Brasil)Um estudo na The Lancet (2013), com municípios, associou maior cobertura do programa a menos mortes de crianças, sobretudo por causas ligadas à pobreza, como a diarreia. Não foi um experimento com sorteio, e isso limita a certeza.
Vermífugos (Quênia)Um estudo famoso indicou que o tratamento melhorava a frequência escolar. Reanálises geraram a chamada “guerra dos vermes”. Um só estudo, por melhor que seja, raramente encerra a questão.

Os limites

  • Valores: dados dizem o que acontece, não o que importa. Se um programa reduz o crime, mas fere direitos, a decisão continua sendo moral. Veja a ética normativa.
  • Validade externa: o resultado em Minas pode não se repetir no Pará.
  • Grandes mudanças: não dá para sortear uma constituição, um câmbio ou uma guerra.
  • Longo prazo: os efeitos demoram a aparecer, e os testes costumam acabar antes.
  • Ética: nem tudo pode virar experimento. Sortear costuma ser mais aceitável quando as vagas são escassas ou a implantação é gradual.
  • O que se mede: o que é fácil de medir pode roubar a atenção do que importa.

As críticas

  • Experimentos não são mágicos. Angus Deaton e Nancy Cartwright, em artigo de 2018, argumentam que o sorteio não garante, sozinho, conclusão confiável nem resultado aplicável a outro lugar.
  • Tecnocracia. “A ciência mostra” pode encerrar debates que deveriam ser democráticos, e quem encomenda o estudo escolhe a pergunta.
  • Foco no pequeno. É mais fácil testar um ajuste do que uma mudança estrutural, o que pode desviar a atenção de questões maiores, como poder e desigualdade.
  • Falsa bala de prata. Uma sátira famosa no BMJ (2003) nota que nunca houve teste aleatorizado do paraquedas. Exigir sempre o padrão máximo pode ser absurdo.
Evidência baseada na política: o caminho inverso é decidir primeiro e encomendar depois o estudo que confirma. Desconfie quando só os resultados favoráveis aparecem. Por isso, muitos autores preferem falar em políticas informadas por evidências: os dados ajudam a decidir, mas não decidem sozinhos.

Por que resistem

Avaliar significa poder ser desmentido. Um programa querido pode não funcionar, o resultado costuma aparecer depois da eleição e encerrar um programa contraria quem depende dele. Avaliações independentes, públicas e obrigatórias ajudam, como as de órgãos como o Ipea. No Brasil, porém, pesquisadores do próprio Ipea ainda descreveram esse movimento como incipiente.

Como cobrar isso de um político

  1. Que problema esta proposta resolve, e como saberemos se funcionou?
  2. Onde já foi testada, e o que aconteceu?
  3. Com o que foi comparada?
  4. Quanto custa, e o que deixa de ser feito com esse dinheiro?
  5. Quem vai avaliar, e o resultado será público?

Use também o guia para comparar projetos.

Erro comum: “Evidência decide a política.” Evidência diz o que funciona para um fim; o fim é uma escolha de valor. E nem tudo pode ser testado; a lição mostra os limites e por que ainda assim vale tratar leis como hipóteses.
Pratique: Valor ou fato?. Treine separar o que se discute com argumento moral do que se checa com dados.

Para guardar

  • Testar, medir e corrigir: um programa não é bom porque soa bem.
  • Revisão sistemática vale mais do que um experimento, que vale mais do que a opinião de um especialista.
  • Evidência diz o que funciona; não diz o que é justo. As duas perguntas continuam separadas.

Para pensar

Que política você defende com mais convicção? Que evidência existe sobre ela, e você já a procurou?

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