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Avançado / Melhorar a democracia

Pragmatismo como postura política

Julgar ideias pelo que produzem, e não pela bandeira. De onde vem a postura, quando é virtude, quando vira falta de princípio, e como distinguir uma coisa da outra.

AvançadoÉtica e valoresDemocracia6 min de leitura

“Sou pragmático” é uma das frases mais usadas na política, e uma das mais ambíguas. Pode significar alguém que julga cada proposta pelos resultados, aceita acordos e corrige o rumo quando os dados mudam. Pode também ser o nome bonito para quem não tem princípio nenhum e vende o voto a quem pagar mais. Esta lição separa as duas coisas.

Nesta lição, você vai

  • Entender a origem filosófica do pragmatismo
  • Diferenciar ética da convicção e ética da responsabilidade, com Weber
  • Separar pragmatismo saudável de falta de princípio

Ajuda ter lido: Valores morais × decisões políticas, Políticas baseadas em evidências.

Uma analogia

Um velejador tem o porto definido e não discute isso com o vento. Mas ajusta a vela, muda o ângulo e às vezes faz zigue-zague para chegar. Pragmatismo é isso: firme no destino, flexível na rota. Quem muda de porto a cada rajada não está velejando, está à deriva.

Explicando para uma criança

Você quer que a turma toda brinque junto. Se um jogo não funciona, você tenta outro, sem desistir da ideia de incluir todo mundo. Isso é ser pragmático. Agora, se você trocar a ideia de incluir todos só para ganhar, aí não é mais pragmatismo, é só querer vencer.

Antes de ler: o que você faria?

Um governante abandona uma promessa de campanha porque os dados mostraram que não funcionaria. Outro abandona um princípio porque perderia votos.

Os dois são pragmáticos? Qual é a diferença?

Ver o que a lição responde

Julgar ideias pelo que produzem é pragmatismo; abandonar princípios por conveniência é oportunismo com nome bonito. A lição mostra as duas éticas de Weber, exemplos que deram certo e quando o pragmatismo vira vício.

De onde vem a palavra

O pragmatismo nasceu como corrente filosófica nos Estados Unidos, no fim do século XIX, com Charles Peirce, William James e John Dewey. A ideia central: o sentido e o valor de uma ideia estão nas consequências práticas que ela produz. Uma crença que não muda nada no mundo não vale a discussão. Dewey levou isso à política e à educação: a democracia seria um grande experimento coletivo, em que as regras são hipóteses a serem testadas, avaliadas e corrigidas, e não dogmas.

Na política cotidiana, a palavra ganhou um sentido mais solto: fazer o que funciona, negociar, aceitar o possível em vez de esperar o ideal. Os dois sentidos se encontram em uma pergunta: o que esta decisão produz, de fato, na vida das pessoas?

Duas éticas, segundo Weber

Em A política como vocação (1919), Max Weber distinguiu duas formas de agir na política:

Ética da convicçãoÉtica da responsabilidade
O que guiaO princípio. Faço o que é certo, aconteça o que acontecerAs consequências previsíveis. Respondo pelo que minha escolha vai causar
Diante de um acordoCeder é trairCeder em parte pode ser o único jeito de conseguir algo
RiscoPureza que não muda nada, ou que destrói tudo em nome do idealJustificar qualquer meio pelo resultado

Weber não escolheu uma contra a outra. Disse que o político maduro precisa das duas: convicções firmes e responsabilidade pelas consequências. O pragmatismo saudável é a ética da responsabilidade a serviço de uma convicção, e não no lugar dela.

Exemplos de pragmatismo que deu certo

  • Deng Xiaoping, na China dos anos 1970: “não importa se o gato é branco ou preto, desde que cace ratos”. Abriu a economia sem abandonar o controle político, e tirou centenas de milhões da pobreza. O mesmo pragmatismo manteve a ditadura, o que mostra que ele não substitui valores.
  • Nelson Mandela negociou com o regime do apartheid que o prendera por 27 anos, aceitou garantias à minoria branca e evitou uma guerra civil. Foi criticado por aliados mais radicais.
  • O Plano Real (1994) combinou economistas de linhas diferentes e abandonou receitas anteriores que não funcionaram, depois de uma década de planos fracassados.
  • Karl Popper chamou de “engenharia social gradual” a postura de reformar aos poucos, medir e corrigir, contra a “engenharia utópica” que quer refazer tudo de uma vez. Veja o perigo das revoluções e as políticas baseadas em evidências.

O que o pragmatismo acerta

  • Olha o resultado, e não a bandeira. Uma boa ideia continua boa quando vem do adversário. É o antídoto ao pacote de ideias.
  • Aceita o possível. Em uma democracia, ninguém governa sozinho. Quem exige tudo costuma conseguir nada. Veja o presidencialismo de coalizão.
  • Corrige o rumo. Trata políticas como hipóteses e muda de ideia diante de evidências.
  • Desconfia das soluções totais. Prefere reformas que podem ser desfeitas se derem errado.
  • Evita o perfeito como inimigo do bom. Uma lei imperfeita que reduz mortes vale mais do que um projeto ideal que nunca passa.

Quando vira vício

Pragmatismo saudávelFalso pragmatismo
Negocia o caminho, e mantém o destinoNegocia o destino: não há nada que não venda
Cede em parte para conseguir o essencialCede o essencial para ficar no cargo
Troca apoio por agenda, às clarasTroca apoio por cargos e verbas, às escondidas. É o fisiologismo
Muda de posição por novos fatos, e explicaMuda de posição por conveniência, e finge que não mudou. Veja o sofismo
Tem limites que não cruza, mesmo para vencer“Os fins justificam os meios”
Diz “ainda não dá” e mostra o planoDiz “não dá” para justificar não fazer nada
Pergunta se funciona, e para quemPergunta só se funciona para quem decide

No Brasil, “pragmático” virou o adjetivo educado para partidos que apoiam qualquer governo em troca de espaço. Isso não é pragmatismo no sentido de Dewey ou de Weber: não há convicção sendo servida pela responsabilidade, só interesse. A palavra é a mesma, e a coisa é outra. Veja palavras em disputa.

Pragmatismo não substitui valores

“Funciona” é uma resposta incompleta até que se diga funciona para quê, e para quem. Uma política pode funcionar muito bem para reduzir o déficit e muito mal para quem perde o atendimento. O pragmatismo é a segunda etapa do raciocínio que a lição sobre valores e decisões apresenta: depois de decidir o que se quer, buscar com honestidade o que realiza isso. Pular a primeira etapa não torna ninguém neutro. Torna a pessoa refém de quem definiu os objetivos por ela.

Por isso, o pragmático sério tem linhas que não cruza: direitos básicos, regras da democracia, verdade sobre os fatos. Essas linhas não são falta de pragmatismo. São o que impede que ele vire o vale-tudo que a tabela descreve. Veja como testar sua visão moral.

As críticas

  • Da esquerda e da direita ideológicas: o pragmatismo seria a aceitação do mundo como ele é, e grandes mudanças, como a abolição, não vieram de quem só aceitava o possível. A resposta pragmática é que a abolição também foi conquistada por etapas, leis e acordos, e não só por proclamações.
  • Dos filósofos: “o que funciona” pode esconder uma teoria da verdade frouxa, em que o útil se confunde com o verdadeiro. Um fato continua sendo fato mesmo quando é inconveniente.
  • Do próprio Weber: a responsabilidade pelas consequências pode virar desculpa para tudo, se não houver convicção por trás.

Como praticar

  1. Escreva o que você quer, antes de discutir como. Isso é o que não está em negociação.
  2. Avalie cada proposta pelo mérito e pela viabilidade, separados.
  3. Pergunte “funciona para quem?”, e inclua quem não está na mesa.
  4. Prefira o que pode ser medido e desfeito.
  5. Aceite acordos que avançam, e recuse os que só mantêm você no jogo.
  6. Diga quais são seus limites, em voz alta e antes de precisar deles.
Para guardar: pragmatismo é teimosia nos fins e flexibilidade nos meios. Quando a flexibilidade chega aos fins, o nome certo é outro.
Erro comum: “Pragmático é quem não tem princípios.” O pragmatismo de Dewey é um método: testar ideias pelos resultados. Ele pressupõe fins (princípios) e julga os meios. Sem fins, não é pragmatismo; é oportunismo.

Para guardar

  • Pragmatismo é firme no destino e flexível na rota; quem muda de porto a cada rajada está à deriva.
  • Weber: o político maduro precisa de convicção e de responsabilidade pelas consequências.
  • Pragmatismo não substitui valores: Deng tirou milhões da pobreza e manteve a ditadura.

Para pensar

Em que ponto um acordo político deixa de ser pragmatismo e vira traição? Como você saberia?

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