Costuma-se imaginar que quem defende mercado livre não se importa com os pobres, e que quem se importa com os pobres desconfia do mercado. O chamado bleeding heart libertarianism, ou libertarismo de coração sangrante, recusa essa divisão: defende a liberdade econômica e a propriedade, e também afirma que uma sociedade justa deve ser avaliada pelo que faz pelos que estão pior.
Nesta lição, você vai
- Entender a proposta: mercado livre por, e para, os mais pobres
- Conhecer o que defendem na prática
- Ver as críticas de outros libertários e da esquerda
Ajuda ter lido: Teorias da justiça para a política, Estado demais, privatização demais.
Uma analogia
Pense em uma ponte. Uns querem que o governo construa e cobre pedágio, e outros, que empresas compitam para construir. Os liberais de coração sangrante dizem: o que importa é quem consegue atravessar, sobretudo os mais pobres. Se a competição levar mais gente para o outro lado, ótimo, e se não levar, é preciso repensar.
Explicando para uma criança
Imagine uma feira em que todo mundo pode vender e comprar. Algumas pessoas acham que isso é bom porque cada um é livre. Outras perguntam se as crianças mais pobres também conseguem comprar comida. Essa ideia tenta juntar as duas coisas: liberdade e cuidado com quem tem menos.
Antes de ler: o que você faria?
Um liberal defende mercados livres e, ao mesmo tempo, diz que uma política só é justificada se beneficiar os mais pobres.
Isso é contradição? De onde vem essa corrente?
Ver o que a lição responde
Não: o libertarismo de coração sangrante defende o mercado por causa dos pobres e aceita justiça social como critério. A lição mostra a origem, o que defendem e as críticas dos dois lados.
De onde vem
O nome ganhou força a partir de 2011, com um blog de filósofos acadêmicos, como Matt Zwolinski e Jason Brennan. John Tomasi, em Free Market Fairness, tentou unir Rawls e Hayek: a liberdade econômica seria um direito básico, e a justiça social, um critério para avaliar instituições. A ideia tem raízes antigas: Adam Smith escreveu sobre a dignidade dos trabalhadores, e Hayek aceitou uma renda mínima garantida.
O que defendem
| Ideia | Na prática |
|---|---|
| Mercados livres ajudam os pobres | Abrir comércio, facilitar abrir negócios e reduzir barreiras para quem quer trabalhar |
| Privilégios prejudicam os pobres | Atacar subsídios a grandes empresas, cartórios, licenças e monopólios. Veja o debate sobre subsídios |
| Renda básica em vez de burocracia | Alguns defendem transferir dinheiro direto, em vez de programas complexos. Veja os programas sociais |
| Liberdade de imigrar | Abrir fronteiras seria uma das formas mais fortes de reduzir a pobreza mundial |
| Contra a guerra às drogas | A proibição pune sobretudo pobres e minorias |
| Moradia acessível | Reduzir regras que impedem construir e encarecem o aluguel |
As críticas
- De outros libertários: justiça social seria um conceito vago, que abriria espaço para mais Estado. Nozick lembrava que importa como a riqueza foi obtida, e não só o resultado.
- Da esquerda: mercados não bastam para corrigir desigualdades de origem, como a da loteria da vida, e o poder econômico também ameaça a liberdade.
- Empírica: muito depende de dados sobre o que de fato ajuda os pobres, e eles variam por país e política. Veja políticas baseadas em evidências.
Para guardar
- Defender o mercado e se importar com os pobres não são opostos nesta corrente.
- O critério aceito é o de Rawls: julgar instituições pelo efeito sobre quem está pior.
- Esse critério permite discutir os meios com dados, entre liberais e social-democratas.
Para pensar
Que privilégio concedido pelo Estado prejudica mais os pobres? Quem defende mantê-lo?
Teste rápido · 1 de 3
Aplique · 2 de 3
Confira · 3 de 3