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Avançado / Quem conta e o que é justo

O libertarismo de coração sangrante

Uma corrente liberal defende mercados livres justamente por, e para, os mais pobres. E aceita que a justiça social importa.

AvançadoIdeologiasEstado e economia2 min de leitura

Costuma-se imaginar que quem defende mercado livre não se importa com os pobres, e que quem se importa com os pobres desconfia do mercado. O chamado bleeding heart libertarianism, ou libertarismo de coração sangrante, recusa essa divisão: defende a liberdade econômica e a propriedade, e também afirma que uma sociedade justa deve ser avaliada pelo que faz pelos que estão pior.

Nesta lição, você vai

  • Entender a proposta: mercado livre por, e para, os mais pobres
  • Conhecer o que defendem na prática
  • Ver as críticas de outros libertários e da esquerda

Ajuda ter lido: Teorias da justiça para a política, Estado demais, privatização demais.

Uma analogia

Pense em uma ponte. Uns querem que o governo construa e cobre pedágio, e outros, que empresas compitam para construir. Os liberais de coração sangrante dizem: o que importa é quem consegue atravessar, sobretudo os mais pobres. Se a competição levar mais gente para o outro lado, ótimo, e se não levar, é preciso repensar.

Explicando para uma criança

Imagine uma feira em que todo mundo pode vender e comprar. Algumas pessoas acham que isso é bom porque cada um é livre. Outras perguntam se as crianças mais pobres também conseguem comprar comida. Essa ideia tenta juntar as duas coisas: liberdade e cuidado com quem tem menos.

Antes de ler: o que você faria?

Um liberal defende mercados livres e, ao mesmo tempo, diz que uma política só é justificada se beneficiar os mais pobres.

Isso é contradição? De onde vem essa corrente?

Ver o que a lição responde

Não: o libertarismo de coração sangrante defende o mercado por causa dos pobres e aceita justiça social como critério. A lição mostra a origem, o que defendem e as críticas dos dois lados.

De onde vem

O nome ganhou força a partir de 2011, com um blog de filósofos acadêmicos, como Matt Zwolinski e Jason Brennan. John Tomasi, em Free Market Fairness, tentou unir Rawls e Hayek: a liberdade econômica seria um direito básico, e a justiça social, um critério para avaliar instituições. A ideia tem raízes antigas: Adam Smith escreveu sobre a dignidade dos trabalhadores, e Hayek aceitou uma renda mínima garantida.

O que defendem

IdeiaNa prática
Mercados livres ajudam os pobresAbrir comércio, facilitar abrir negócios e reduzir barreiras para quem quer trabalhar
Privilégios prejudicam os pobresAtacar subsídios a grandes empresas, cartórios, licenças e monopólios. Veja o debate sobre subsídios
Renda básica em vez de burocraciaAlguns defendem transferir dinheiro direto, em vez de programas complexos. Veja os programas sociais
Liberdade de imigrarAbrir fronteiras seria uma das formas mais fortes de reduzir a pobreza mundial
Contra a guerra às drogasA proibição pune sobretudo pobres e minorias
Moradia acessívelReduzir regras que impedem construir e encarecem o aluguel

As críticas

  • De outros libertários: justiça social seria um conceito vago, que abriria espaço para mais Estado. Nozick lembrava que importa como a riqueza foi obtida, e não só o resultado.
  • Da esquerda: mercados não bastam para corrigir desigualdades de origem, como a da loteria da vida, e o poder econômico também ameaça a liberdade.
  • Empírica: muito depende de dados sobre o que de fato ajuda os pobres, e eles variam por país e política. Veja políticas baseadas em evidências.
O valor da proposta está no critério que ela aceita: julgar instituições pelo efeito sobre quem está pior. Esse critério une liberais, social-democratas e outros, e permite discutir os meios com dados. Veja as teorias da justiça e a vertente do social-liberalismo.
Erro comum: “Liberal econômico é indiferente aos pobres.” Há liberais que defendem o mercado justamente como melhor caminho para os pobres e aceitam redistribuição onde o mercado falha. A disputa com a esquerda é sobre meios, não sobre a prioridade dos pobres.

Para guardar

  • Defender o mercado e se importar com os pobres não são opostos nesta corrente.
  • O critério aceito é o de Rawls: julgar instituições pelo efeito sobre quem está pior.
  • Esse critério permite discutir os meios com dados, entre liberais e social-democratas.

Para pensar

Que privilégio concedido pelo Estado prejudica mais os pobres? Quem defende mantê-lo?

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