Debates / Mundo e defesa
O Brasil deveria ter armas nucleares?
Dissuasão e prestígio contra custo, isolamento e a Constituição
Nove países têm armas nucleares. O Brasil domina o ciclo do urânio, constrói um submarino de propulsão nuclear e, nos anos 1970 e 1980, teve um programa secreto com fins militares, encerrado na redemocratização. A Constituição de 1988 permite atividade nuclear só para fins pacíficos; o país assinou o Tratado de Tlatelolco, que desnucleariza a América Latina, criou com a Argentina uma agência de inspeção mútua e aderiu ao Tratado de Não Proliferação em 1998. A proposta de ter a bomba reaparece de tempos em tempos, em geral depois de alguma crise internacional.
Antes de ler: para que lado você pende?
A posição de cada lado
Ter, ou manter a opção aberta
- Nenhum país com armas nucleares foi invadido; a Ucrânia abriu mão das suas em 1994 e foi invadida
- Dissuasão é a única garantia que não depende da boa vontade de aliados
- O Brasil já domina a tecnologia, e o custo marginal seria menor do que parece
- Prestígio e peso nas negociações internacionais, inclusive na reforma da ONU
Não ter
- O Brasil não tem inimigo que o ameace militarmente, e dissuasão sem ameaça é custo sem benefício
- Sanções, isolamento e o fim de parcerias tecnológicas e comerciais, como ocorreu com o Irã e a Coreia do Norte
- Violaria a Constituição e três tratados, e destruiria a confiança construída com a Argentina, que poderia reagir com o próprio programa
- Cada arsenal a mais aumenta o risco de acidente, roubo e uso, e a América do Sul desnuclearizada é um ganho para todos
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
Por que é complexo
- A dissuasão funciona contra invasão, mas o Brasil não enfrenta esse risco, e sim ameaças de outro tipo, como crime organizado e pressão comercial
- O submarino nuclear é propulsão, e não arma: a confusão é comum e às vezes proposital
- O programa com a Argentina é citado no mundo como modelo de como dois rivais abandonam a bomba
- O Tratado de Proibição de Armas Nucleares, de 2017, foi assinado pelo Brasil e ainda não ratificado
- Quem defende a bomba costuma usar o argumento do prestígio, e prestígio não protege ninguém de nada
O que a lógica e os dados indicam
A lógica e os fatos pesam contra: o Brasil não tem ameaça militar que a dissuasão nuclear resolveria, e teria custos certos, de sanções a tratados rompidos e à desconfiança da Argentina, por um benefício hipotético. A Constituição proíbe. O debate legítimo é outro: o domínio da tecnologia nuclear para energia, medicina e propulsão, que o país já tem e pode ampliar sem a bomba.
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E agora, depois de ler?
Subtópicos
- Dissuasão
- A ideia de que ter armas capazes de destruir o inimigo impede o ataque, porque ninguém ataca quem pode retaliar.
- Tratado de Não Proliferação
- Acordo de 1968 que proíbe novos países de ter armas nucleares e compromete os que têm a negociar o desarmamento. O Brasil aderiu em 1998.
- Tratado de Tlatelolco
- Acordo de 1967 que torna a América Latina e o Caribe zona livre de armas nucleares.
- ABACC
- Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle, criada em 1991, em que os dois países inspecionam as instalações um do outro.
- Prosub
- Programa brasileiro de submarinos, que inclui um de propulsão nuclear, sem armas nucleares.
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
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