Debates / Ambiente e animais
Pragas urbanas e espécies invasoras: quem controla quem?
Matar, afastar ou esterilizar ratos, pombos, javalis e invasoras? E quem causou o problema?
Ratos, pombos, mosquitos, javalis, capivaras, caramujos africanos e peixes-leão: o poder público decide todos os dias quais animais podem viver onde, e como eliminar os que incomodam. No Brasil, o javali foi declarado nocivo pelo Ibama em 2013 e pode ser abatido; cidades gastam com raticidas e fumacê; e o estado de São Paulo passou a permitir a esterilização preventiva de capivaras. Por trás das decisões está uma pergunta pouco feita: quem criou o problema?
Antes de ler: para que lado você pende?
A posição de cada lado
Controle pela eliminação
- Ratos, mosquitos e carrapatos transmitem doenças graves
- Javalis destroem lavouras e espécies invasoras extinguem espécies nativas
- Métodos letais são rápidos e conhecidos
- Proteger a saúde humana e a produção vem primeiro
Controle ético e preventivo
- Quase todas as “pragas” prosperam por causa do que os humanos fazem: lixo, abrigo, desmatamento e introdução de espécies
- Animais sentem dor e medo; o rótulo de praga não muda isso
- Abate e veneno costumam falhar no longo prazo: a população volta e o veneno mata outros animais
- Prevenção, barreiras e contracepção atacam a causa e causam menos sofrimento
Posições gerais. Muita gente concorda em parte com cada lado.
Quem é o animal perigoso?
Segundo o Our World in Data, com dados de 2023, os animais que mais matam seres humanos são os mosquitos, com cerca de 760 mil mortes por ano, quase todas por malária. Em segundo lugar vem o próprio ser humano, com cerca de 600 mil mortes por ano em homicídios e guerras. As cobras aparecem bem atrás, com cerca de 100 mil, e os cães com cerca de 40 mil, quase todas por raiva.
Para os outros animais, não há disputa: o ser humano é de longe o mais letal. O número mais citado, cerca de 80 bilhões de animais mortos por ano para comida, conta só mamíferos e aves. Somando peixes pescados e criados, camarões e outros crustáceos, animais aquáticos moídos para virar ração, insetos criados para comida e ração, bichos-da-seda e as cochonilhas do corante carmim, as estimativas chegam a algo entre 34 e 54 trilhões de animais mortos por ano na exploração. Os 80 bilhões são só 0,1% a 0,2% disso. Os camarões pescados no mar, sozinhos, seriam cerca de 25 trilhões. As estimativas de peixes vêm do projeto Fishcount, e as de insetos e invertebrados, de pesquisas como as da Rethink Priorities. A lição Ética animal na prática, do Ética Para Iniciantes, discute o que fazer com elas.
E isso conta só quem é morto de propósito. Ficam de fora os animais que morrem pela destruição de florestas, por agrotóxicos, por atropelamentos, pela poluição e pelas próprias campanhas de controle de “pragas”. Hoje, humanos e animais de criação somam cerca de 95% da massa de todos os mamíferos da Terra; os mamíferos selvagens ficaram com cerca de 5%.
Também é a atividade humana que está por trás da crise da biodiversidade. Os cinco grandes motores da perda de espécies apontados pela IPBES, a plataforma científica da ONU sobre o tema, são a mudança no uso da terra e do mar, a exploração direta, a mudança do clima, a poluição e as espécies invasoras, e todos dependem do que nós fazemos. As espécies invasoras que tanto preocupam foram, quase sempre, levadas por nós, de propósito ou por descuido: o relatório da IPBES de 2023 contou mais de 37 mil espécies introduzidas pela atividade humana pelo mundo. Culpar o javali, o caramujo-africano ou o peixe-leão é olhar para o fim da história e esquecer o começo.
Quem chamou de praga?
“Praga” não é uma categoria da biologia: é um rótulo que damos a um animal quando ele atrapalha nossos interesses. O rato prospera onde deixamos lixo e comida, o pombo onde alimentamos e oferecemos abrigo, o javali porque foi trazido para criação e caça e depois solto ou fugiu, e o mosquito da dengue na água parada que acumulamos. Na maior parte dos casos, a explosão de uma população é efeito de algo que nós fizemos: tiramos predadores, destruímos habitats, espalhamos espécies pelo mundo e criamos cidades cheias de comida fácil.
Isso não quer dizer que não haja problemas reais. Ratos transmitem leptospirose, mosquitos transmitem dengue e malária, carrapatos das capivaras transmitem febre maculosa, e espécies invasoras levam outras à extinção. A questão é como responder: tratando o animal como inimigo a ser eliminado, ou atacando a causa e escolhendo o método que resolve com menos sofrimento.
Os métodos, do mais ao menos danoso
| Método | Como funciona | O que se sabe |
|---|---|---|
| Prevenção e manejo do ambiente | Coleta de lixo, vedação de prédios, fim da água parada, não alimentar pombos | Ataca a causa: sem comida e abrigo, a população cai e não volta. É a base de qualquer programa sério |
| Barreiras e afugentamento | Cercas, telas, redes e dispositivos que espantam | Funciona bem em lavouras e prédios; não reduz a população, desloca |
| Esterilização cirúrgica | Castração, laqueadura ou vasectomia de animais capturados | Usada em cães e gatos e, em São Paulo, em capivaras de áreas com febre maculosa; boa para populações pequenas e localizadas |
| Contracepção na comida | Iscas que reduzem a fertilidade, como o ContraPest para ratos e a nicarbazina para pombos | Nova York aprovou em 2024 um projeto-piloto com ratos. Para pombos, Barcelona relatou queda pela metade, mas um estudo controlado na própria cidade não achou efeito: os resultados variam e precisam de mais estudo |
| Imunocontracepção | Vacinas que impedem a reprodução, como a GonaCon e a PZP | Usadas nos EUA em cervos e cavalos selvagens; difíceis de aplicar em larga escala |
| Captura e realocação | Levar o animal para outro lugar | Muitos morrem depois, e o problema pode mudar de endereço |
| Abate | Caça, armadilha letal, tiro | Às vezes necessário em ilhas, para salvar espécies nativas. Mas o javali se espalhou pelo Brasil mesmo depois de o abate ser liberado em 2013, e a caça pode dispersar os grupos |
| Venenos | Raticidas e iscas tóxicas | Matam com sofrimento prolongado e envenenam corujas, gaviões, gatos e cães que comem as presas. A coruja Flaco, de Nova York, morreu com veneno de rato no corpo |
| Ratoeiras de cola | Superfície adesiva que prende o animal até a morte | Considerada das mais cruéis; a Inglaterra proibiu seu uso por leigos em 2024 |
Ideias mais ousadas, ainda em teste
- Wolbachia: mosquitos da dengue com uma bactéria que bloqueia o vírus. Não mata ninguém, nem o mosquito. Em Niterói, a Fiocruz associou o método a uma queda de cerca de 70% dos casos de dengue.
- Mosquitos geneticamente modificados: machos alterados, liberados no Brasil pela empresa Oxitec com aprovação da CTNBio, geram filhotes que não chegam à fase adulta.
- Gene drive: uma alteração genética que se espalha pela população e pode torná-la estéril ou incapaz de transmitir doenças. Promete eliminar a malária e salvar aves de ilhas invadidas por ratos, mas é difícil de reverter, e o efeito em cadeia nos ecossistemas ainda é pouco conhecido.
- Contraceptivos de longa duração na comida: a ideia de controlar populações inteiras de forma pacífica, como no projeto dos ratos de Nova York. Depende de iscas que só a espécie-alvo coma.
Todas essas ideias precisam de estudo, monitoramento e regras. O critério que mais se defende hoje é o dos princípios internacionais para o controle ético de animais selvagens, de 2017: começar mudando as práticas humanas que causam o conflito, exigir evidência de dano real, ter metas mensuráveis, usar o método que cause menos sofrimento ao menor número de animais e decidir caso a caso, e não pelo rótulo de “praga”.
Por que é complexo
- Há riscos reais à saúde, e há urgência em ilhas onde espécies nativas podem sumir
- Métodos sem dano existem, mas muitos ainda são caros, lentos ou pouco testados em larga escala
- O mesmo animal é “praga” para um e companhia para outro, como os gatos ferais
- Quem paga e quem decide: prefeituras, Ibama, produtores rurais e moradores têm interesses diferentes
- O ser humano, que causa a maior parte do desequilíbrio, raramente aparece como parte do problema
O que a lógica e os dados indicam
A evidência e a ética apontam na mesma direção: começar pela causa humana do conflito, como o lixo, a água parada e a introdução de espécies, e preferir métodos que resolvam com menos sofrimento. Abate e veneno às vezes são usados por falta de alternativa, sobretudo em ilhas e emergências sanitárias, mas falham com frequência e espalham dano. Contracepção, Wolbachia e técnicas genéticas são promissoras e ainda pedem estudo e regras. Chamar um animal de praga não justifica qualquer método.
Avaliação do site, sujeita a críticas. Evidências novas podem mudar esta avaliação.
E agora, depois de ler?
Subtópicos
- O javali no Brasil
- Trazido para criação e caça, espalhou-se pelo Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O abate foi liberado em 2013 e regulado em 2019; especialistas e o próprio Ibama discutem dar mais peso a armadilhas e menos à caça com armas.
- Capivaras e febre maculosa
- Em áreas com o carrapato, São Paulo permite manejo reprodutivo preventivo, com laqueadura e vasectomia, além de abate em casos de risco.
- Ratos e leptospirose
- O controle que funciona começa no lixo e no esgoto. Raticidas sem manejo do ambiente matam e a população volta.
- Pombos
- Proibir a alimentação, vedar abrigos e usar contracepção tende a funcionar melhor do que capturar e matar.
- Espécies invasoras
- Segundo a IPBES, elas estão por trás de 60% das extinções registradas, e quase sempre chegaram levadas por humanos. Prevenir a introdução é muito mais barato do que remediar.
Perguntas para pensar
- Qual parte é fato, e qual é valor?
- Quem paga o preço de cada opção?
- Eu aceitaria essa regra sem saber em que lugar estaria?
- O que me faria mudar de ideia?
Leia também: Animais de rua, Direitos animais, Política baseada na senciência, Sencientismo e senciocracia, Direito ambiental: quem responde pela floresta, Direito animal: de coisa a ser que sente, Inclusão moral e sencientismo.
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